São Paulo, 29 (AE) - Dois longas-metragens concorrentes discutem diretamente a questão política brasileira:"O Tronco", de João Batista de Andrade, e "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio Cândido. O primeiro adapta um romance do goiano Bernardo Élis, baseado em fatos reais, uma luta de coronéis contra o governo do Estado no fim da década de 10.
O segundo começa pela história mais recente e chega à contemporânea, destacando três momentos: o golpe militar de 1964
que derrubou o governo de João Goulart; a anistia de 1979, que trouxe de volta os exilados e introduziu o tema da reconciliação na pauta nacional; o momento atual, com o fim das utopias e a chegada ao poder de uma parcela da esquerda, que revelou-se mais pragmática do que se poderia supor.
Em "O Tronco", o que se discute no fundo são as estruturas profundas da sociedade brasileira. Há o poder local, representado pelos coronéis, que convive com o poder central, o do Estado. Essa coabitação tem seus limites históricos e, em determinado momento, um entrará em confronto com o outro. É o que ocorre quando o coletor de impostos Vicente busca ajuda para enfrentar o poderoso coronel Melo e, com isso, desencadeia uma guerra sangrenta que não estava nos seus planos.
João Batista, nesse que é seu 11.º longa-metragem, procura conciliar o drama social com o pessoal. Quem desencadeia a guerra é um homem ligado, por laços de família,e também afetivamente, ao grupo que combate. Interessaria a ele uma solução negociada, mas logo percebe que ela não será possível. Vicente encarna o homem bem-intencionado, que é ultrapassado pelos acontecimentos, como em outra escala foi o caso de Gorbachev, por exemplo. No entanto, por querer trabalhar também (e talvez principalmente) na chave da aventura e do drama romântico, "O Tronco acaba por não aprofundar nem a sua análise social e nem o dilaceramento interno do protagonista. Fica no meio do caminho.
"A Terceira Morte de Joaquim Bolívar" é, em si, um filme interessante e sincero. Não merece as críticas azedas que ganhou de alguns jornais. Parece imaginativo em seu tom, que evoca de forma direta o realismo mágico de Gabriel García Márquez. Como se a ficcional Burruchaga do título fosse uma Macondo brasileira.
O tom é pessimista, o que não é um problema em si, mas não se pode passar por cima de certo esquematismo analítico e alguns chavões. Ambicioso em sua horizontalidade, pela extensão do período abarcado, Bolívar parece modesto no sentido vertical, que levaria ao aprofundamento dos seus temas.

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