"O Troco" é o melhor de Mel Gibson nos últimos anos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 25 (AE) - Pode não ser um excelente filme e talvez não seja mesmo, mas "O Troco", que estréia amanhã (26), é mais interessante do que qualquer coisa que Mel Gibson tenha feito nos últimos anos, até mesmo "Coração Valente", que recebeu todos aqueles Oscars da academia. A dúvida decorre do fato de que "O Troco" não é o filme planejado pelo diretor Brian Helgeland. Ele e Gibson brigaram durante a rodagem. Helgeland foi afastado da montagem final. Sob a orientação de Gibson, cenas foram refilmadas para adequar o filme à imagem do ator. Mas a concepção original de Helgeland foi preservada.
No more Mr. Nice Guy, anuncia a publicidade de "O Troco". A idéia do filme é denunciar, desde o interior, o excesso de violência celebrado pelo cinema de ação na atualidade. Em todos os filmes, Gibson bate, dispara e arrebenta
mutila, faz o diabo porque é um astro de Hollywood e as convenções do cinemão lhe conferem esse poder. Chega de mocinhos: Helgeland propõe um personagem no mínimo mais complexo do que o tira impulsivo e malucão da série "Máquina Mortífera".
É uma refilmagem de "À Queima-Roupa". Ou melhor: baseia-se no mesmo romance de Richard Stark (The Hunter) que deu origem ao filme famoso com Lee Marvin. Quem viu o original de John Boorman sabe que se trata de um dos grandes filmes do diretor (e um dos melhores do cinema americano nos anos 60). Boorman incorporou, ao cinema de ação com elementos noir e de gângsteres, a sofisticação de montagem do estilo do francês Alain Resnais.
A fonte de Helgeland não é o cinema europeu. Roteirista premiado (com o Oscar) por "Los Angeles, Cidade Proibida", ele com certeza contribuiu para o êxito do filme de Curtis Hanson que renovou as trilhas do film noir. Esse tipo de cinema continua a ser a obsessão de Helgeland. Mas, em vez de celebrar o que há de mais elegante no film noir (como faria um cineasta pós-moderno), Helgeland revolve suas entranhas para mostrar o que ele tem de mais sórdido.
No começo da história, Gibson, como Porter, é traído pela mulher e pelo parceiro. Dado como morto, ele volta para vingar-se - ou para recuperar os US$ 70 mil que o antigo parceiro lhe roubou. Por esse dinheiro, considerado irrisório no submundo, enfrenta o sindicato do crime e policiais corruptos. É ajudado por uma prostituta, Rosie, interpretada por Maria Bello. Enfrenta uma vilã sadomasoquista (Lucy Liu), sugestivamente chamada de Dominatrix. Numa cena, ambos apontam pistolas, bem ao estilo de John Woo, que Quentin Tarantino já havia copiado em "Cães de Aluguel". Porter une duas características fortes do cinema hollywoodiano: é um homem que vai ao limite e sonha com seu renascimento, em busca de uma segunda chance.
Para a maioria da crítica, "O Troco" é um filme desprezível que justifica todo tipo de brutalidade e violência, desde que praticado pelos astros de Hollywood. Não é o que Helgeland quer dizer. O que lhe interessa é justamente o inverso
embora ele não tenha podido levar seu partido até o fim. Mas o que sobrou no filme mostra que se trata de um cineasta com estilo.
É um herdeiro de Don Siegel, Samuel Fuller e Robert Aldrich, para citar apenas três diretores que sacudiram Hollywood com a fúria de seus socos e tiros. As cenas de "O Troco" não são simples armações de técnicos em efeitos, especialistas em corridas e tiroteios. Tudo, menos um filme anódino e impessoal. Há algo de intenso e vigoroso que emerge dessas imagens e a narração feita na primeira pessoa apenas acentua a filiação de "O Troco" ao melhor cinema policial e de gângsteres.
Em meio às explosões de violência, há momentos líricos como aquele em que Porter troca olhares com a mulher dentro do carro. O desfecho é realista: ela promete não se prostituir mais
ele diz que não vai mais ser violento. "O Troco" coloca seu happy end sob o signo do precário. Isso é Helgeland. Já era assim no fim daquela verdadeira obra-prima chamada "Los Angeles".


