Cássia Kiss gosta de falar dos mais variados temas ao mesmo tempo. Sem disfarçar uma incorrigível inquietação, ela quer saber das principais notícias do dia, depois comenta as dificuldades de conciliar a atividade de atriz com a de mãe e ainda encontra fôlego para se desmanchar de orgulho com seu mais novo trabalho na televisão: a maquiavélica Adma, de ‘‘Porto dos Milagres’’. A personagem interpretada por Cássia se tornou um dos principais destaques da novela de Aguinaldo Silva e ainda ‘‘roubou’’ de Arlete Salles, que vive a pernóstica Augusta Eugênia, a função de grande vilã da trama. ‘‘É porque minha personagem é realmente fria, calculista e passa por cima de todo mundo sem nenhuma compaixão, enquanto a da Arlete tem uma veia mais cômica’’, justifica diplomaticamente a atriz de 43 anos.
O maior reflexo de que a personagem realmente vem funcionando como a principal vilã da história é a repercussão do público nas ruas. Cássia conta que as pessoas já não disfarçam mais o ódio que sentem pela Adma. ‘‘Muita gente já disse que quer matá-la de qualquer jeito’’, revela a atriz, sem esconder uma certa preocupação com a reação negativa do público. Mesmo assim, Cássia admite que as vilãs são personagens mais agradáveis de se fazer na televisão. ‘‘Elas não têm qualquer tipo de compromisso com a consciência. Isto é muito interessante’’, avalia.
Com 25 anos de carreira, Cássia tem outro motivo para comemorar esta nova fase profissional. Ela volta a formar par romântico com Antônio Fagundes, que vive o ‘‘coronel’’ Félix na novela das oito. Os dois já haviam formado um casal em ‘‘Por Amor’’, de Manoel Carlos. Se não bastasse viver a mulher do ator na televisão, ela repete a mesma função no espetáculo ‘‘Últimas Luas’’. Este espetáculo, aliás, foi o último trabalho do astro italiano Marcelo Mastroianni no teatro. ‘‘O Antônio é o ator mais profissional com quem já trabalhei em toda minha vida. Ele é simplesmente um Deus para mim’’, exagera a atriz. Quem se depara com tanto entusiasmo não acredita que ela pensou em abandonar a carreira logo depois de ter os dois filhos, Joaquim e Maria. ‘‘Mas percebi que havia ficado um grande vazio em minha vida’’, justifica.
Uma boa vilã é a personagem mais saborosa para uma atriz?
O último personagem que interpretei na televisão, a Adelaide de ‘‘Esplendor’’, era totalmente diferente de agora. Ela era uma pessoa santa, pura e sem qualquer tipo de defeito. E, mesmo com todas estas benevolências, foi um dos personagens que mais mexeu comigo ao longo de toda minha carreira. Mas confesso que interpretar a vilã é muito gratificante. Por inúmeras razões. A principal delas é a falta de compromisso que a personagem tem na trama. Ela não tem responsabilidade com você para ser bom na vida. Também não tem compromissos. Com a Adma é diferente. Ela é imoral sem qualquer tipo de pudor. Pelo macho dela, ela é capaz de matar, roubar e até dar um filho para o marido, mesmo sem o desejo de ser mãe. Mas a minha preocupação é não cair no lugar-comum com este tipo de personagem. Procuro passar naturalidade, como se fosse realmente uma pessoa má.
Geralmente, as vilãs do Aguinaldo Silva possuem forte veia cômica. Por isso mesmo, a grande vilã de ‘‘Porto dos Milagres’’ deveria ser a Augusta Eugênia. Quando você percebeu que havia ‘‘roubado’’ a vilania da história das mãos da Arlete Salles?
É difícil dizer quando a Adma assumiu o posto de grande vilã da história. Acho porque ela é realmente má, enquanto a Eugênia Augusta adota um tom engraçado com suas maldades. Então, por isso, acredito que a Eugênia até acabe também conquistando a simpatia do público. Já a Adma é muito fria e calculista. Por isto, todos a detestam. Para cada um dos seus desafetos, ela tem uma medida. Já com o marido, ela é uma deusa.
Você já sentiu algum tipo de represália do público por causa da vilania de sua personagem?
Sim. Quando saio, já vão longo me abordando: ‘‘Minha filha, você é muito má. Estou querendo te matar!’’. Então, fico um pouco com medo. Porque, de repente, aparece um cara maluco ou um psicopata, sei lá. O John Lennon não morreu assim?
Você disse inúmeras vezes que se emociona com seus personagens. Dá para se comover com a Adma?
Por enquanto não. Mais vai chegar uma hora que a Adma vai levar um ‘‘pé na bunda’’ do Félix. E aí? Ela vai se rasgar. Então, vai ser inevitável o sofrimento dela. Vejo várias atrizes dizendo que conseguem separar o trabalho da vida pessoal. Eu não consigo. Misturo tudo. Eu gostaria de sair do trabalho e relaxar. Mas normalmente quando chego em casa, estou ainda a mil por hora. Fazer novela é assim. Tem de estar com todas as turbinas ligadas. Na verdade, a gente é louco. No início desta novela, cheguei a gravar 60 cenas num único dia. Isto sem falar que a gente fica mudando de roupa a toda hora, prestando atenção nas determinações do diretor e ainda tendo de se preocupar com a luz, com a câmara, com a marcação, etc. Claro que a gente acaba se envolvendo. É um processo dinâmico. Se for chamar o Roberto De Niro para fazer novela, ele não vai fazer como a gente. Vai pedir um tempo para fazer. Para falar a verdade, se eu soubesse que o caminho fosse este, teria seguido outra profissão. Não quero isto para os meus filhos.
Por quê?
É uma vida muito louca. Procuro até controlar o que eles assistem na televisão. Tenho critérios. Meus filhos nunca me viram nesta novela. Não deixo de maneira alguma. Até porque o Joaquim tem cinco anos e a Maria quatro. Não quero que eles vejam a mãe deles fazendo malvadezas. Não quero confundir a cabecinha deles.
Foi justamente por esta razão que você chegou abandonar a carreira, logo depois que seus dois filhos nasceram?
Foi sim. Queria dar um tempo para ser mãe e realmente pensei em não voltar a atuar nunca mais. Mas os meus próprios filhos me fizeram retomar a carreira. Estava faltando alguma coisa em minha vida. Ficou um vazio muito grande. Daí pensei: ‘‘Vou criar os meninos nos dois primeiros anos de vida e depois voltar ao trabalho’’. É o que estou fazendo. Mas é claro que tudo está muito sobrecarregado, principalmente por causa da peça. Estou viajando por todo o país. Mas consegui administrar tudo muito bem.
Depois de 16 anos, como você vê sua atuação em ‘‘Roque Santeiro’’, considerado um dos maiores sucessos da dramaturgia brasileira de todos os tempos?
Realmente esta novela merece um capítulo especial na história da televisão brasileira. Na época, eu não tinha dimensão da importância da novela. Mas estou em plena crise revendo o trabalho hoje em dia. Vejo a novela e falo: ‘‘Como era novinha, bonitinha e engraçadinha’’. Agora, estou com 43 anos, cheia de rugas, cara, peito e bunda caindo. Mas sei que sempre vai ter um papel de bruxinha para eu fazer na televisão.
Ao longo de sua carreira, você ganhou mais destaque com papéis passionais, como a Eunice em ‘‘Pecado Capital’’ e a Lulu em ‘‘Roque Santeiro’’. Você tem predileção por este tipo de personagem?
No teatro até que fiz outros tipos. Principalmente comédias. Mas na tevê realmente tem calhado mais este tipo de personagem. Mas nunca escolhi. O máximo que acontece é eu perguntar para o autor porque estou sendo escolhida para o papel. Quero saber o que ele quer de mim naquele trabalho.
Você fez par romântico com o Antônio Fagundes em ‘‘Por Amor’’. Como está sendo este reencontro com ele?
Maravilhoso. A gente está muito cúmplice. Além da novela, a gente também está fazendo teatro. Então, estamos juntos todos os dias: de segunda a segunda. A gente só não dorme junto. Então, acaba criando um laço muito grande. Além do mais, tenho uma grande admiração pelo Antônio. Com 25 anos de carreira, nunca trabalhei com um profissional como ele, que se envolve completamente com o trabalho. Trata-se de um ator muito talentoso. Outro dia cheguei para ele e disse: ‘‘Fagundes, você não vai se enjoar de mim?’’. Ele trata tudo com muito profissionalismo.

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