O traficante de idéias
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de julho de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Como em um conto do escritor argentino Jorge Luís Borges, este texto propõe uma caminhada labiríntica pela memória de um encontro ocorrido durante o final do mês passado com o artista Cildo Meireles, que foi à Curitiba para falar de seu processo de criação, em palestra realizada no espaço ACT. Trata-se de um pequeno fragmento de uma história contada durante os dois dias em que esteve na cidade falando sobre arte, mundo e vida.
Essa história gira em torno de seu trabalho Tiradentes: Totem-Monumento ao Preso Político, de 1970, realizada em Belo Horizonte, na exposição Do Corpo à Terra, no Palácio das Artes. Em uma estaca de madeira com um termômetro na extremidade, foram amarradas e incendiadas 10 galinhas vivas (não gosto muito de falar daquilo, até hoje aquelas galinhas queimam na minha consciência, ele diz) diante de um pequeno público que foi ao espaço para a inauguração da mostra. A controversa e polêmica atitude do jovem artista à época deixou irritada a cúpula dos militares que se reuniam no mesmo momento, em outro local, comemorando o dia 21 de abril, em uma homenagem ao herói da inconfidência apropriando-se de sua imagem no auge da ditadura no país. O protesto do artista que acabou se transformando em um dos símbolos de resistência cultural do período, juntamente com as trouxas ensanguentadas de Artur Barrio e outros foi endereçado contra o fechamento, no Rio de janeiro, da exposição que selecionaria os artistas que iriam participar da Bienal de Paris daquele ano e, claro, uma resposta ao governo militar.
Bem, sobre a Bienal de Paris, apenas uma pessoa foi selecionada para participar da mostra, os outros foram impedidos de ir. Seu nome? Jaime Lerner. Mais, por causa de fatos arbitrários como esses que aconteceram no país, os artistas internacionais se recusaram, por 10 anos, a enviar obras para a Bienal de São Paulo. Sobre a reunião da cúpula dos dirigentes militares da época, adivinhem o prato que foi servido na ocasião? Galinha ao molho pardo. E sobre a obra do artista, como o momento não estava para brincadeiras, mandaram prender...o mastro onde as aves foram colocadas.
Para Cildo Meireles, os termos artista visual e artista plástico não parecem adequados para a atividade que realiza, uma vez que em seu trabalho outros orgãos da percepção participam das situações, como o olfato, o paladar, a audição e o tato. E podem ser tão importantes quanto o dado visual. Além do mais, o próprio pensamento e a imaginação podem ser espaços privilegiados para o acontecimento do fenômeno artístico. Assim, ele diz que gostaria de ser chamado de traficante de idéias. Também lhe soa estranho a designação, que muitas vezes lhe atribuem, de artista profissional, como alguém que participasse de uma corrida comercial atrás de um selo de padrão de qualidade. Ele prefere correr riscos.
Suas obras jogam o tempo todo com o paradoxo da percepção e da sensorialidade, revelando contradições que só conseguimos captar se deixarmos nos envolver pelo jogo compreendido entre a aparência da forma e sua realidade material. São bolas do mesmo tamanho com pesos diferentes. Ambientes iguais e simétricos na aparência, mas que enganam nossa certeza visual. Réguas de marceneiro com números trocados. Cercas que impedem a entrada do corpo, mas não do olhar. Notas de zero cruzeiro. Inserções em circuitos ideológicos. Mutações geográficas criadas a partir de um grão de terra. Ambientes impregnados de cor vermelha, etc... Enfim, como em um koan budista, o espectador precisa deixar as certezas do raciocínio lógico de lado se quiser compreender as questões propostas pela obra de Cildo Meireles em que ilusões que se convertem em realidades e vive-versa. Histórias dentro de outras histórias. Como em um conto de Borges, um jardim das veredas que se bifurcam.
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