Sebastião Salgado/ReproduçãoÀ espera de que as folhas de chá sejam pesadas e separadas. Ruanda, 1991Uma foto pode dizer muito, uma imagem pode dizer mais. As fotografias de Sebastião Salgado dizem mais além. Como se cada uma delas fosse um coração pulsando, balbuciano alguma coisa em nossos ouvidos, desenterrando sentidos e sentimentos soterrados por um cotidiano pequeno e mesquinho.
Beleza assustadora. Esta talvez seja a melhor forma de definir o trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado reunido no livro ‘‘Trabalhadores - Uma Arqueologia da Era Industrial’’. Beleza porque leva a estética da arte fotográfica à sua máxima potência. Assustadora porque revela uma sensibilidade capaz de humanizar o coração das pedras.
Natural de Aimorés, interior de Minas Gerais, Salgado é considerado um dos maiores fotógrafos do mundo. Dono de um estilo único, trabalhando sempre em preto e branco, une técnica, arte, coração e ideologia como um mestre consciente da necessidade de sua missão. O impacto de suas fotos é capaz de destruir qualquer ganância e pretenção de um corpo de carne e osso. É capaz de erguer um edifício de reflexão, romper uma represa de lágrimas. Mais exatamente, um imã que proporciona o encontro das humanidades.
Sebastião Salgado/ReproduçãoA lã crua é separada na fábrica de processamento de têxteis de Kustanai. Casaquistão, 1991.
Publicado em oito países, ‘‘Trabalhadores’’ finalmente ganha sua edição brasileira com quatro anos de atraso. Lançado pela Editora Companhia das Letras, com 350 fotografias, o livro traz a essência de um projeto que Salgado levou sete anos para concluir. Percorreu os quatro cantos do mundo registrando o trabalho braçal, manual (em pequena e grande escala) de homens e mulheres esquecidos nos buracos do planeta. O subtítulo da obra ‘‘Uma Arqueologia da Era Industrial’’ diz tudo: o processo no qual as mãos e corpos dos homens se definiram como ferramentas de trabalho. Como ferramentas são objetos, Salgado revela a humanidade destes objetos humanos, resgata através de imagens a beleza de seus esforços na sobrevivência: ‘‘A História do mundo é sentida acima de tudo como um rosário de grandes desafios, a reafirmação de um fato que se repete a cada dia: a história do ser humano é a história de sua perseverança. No lado de cá do mundo, a história é uma espiral sem fim de opressões, humilhação, devastação. Mas também da infinita capacidade humana para sobreviver a todas as pestes, todos os males, inclusive os mais cruéis: a cobiça, a ambição.’’
Sebastião Salgado/ReproduçãoTrabalhador supervisiona tubos em volta da fornalha. França, 1987
A relação de Sebastião Salgado com a fotografia é curiosa. Salgado era um economista com mestrado e doutorado em Universidades dos Estados Unidos e Paris. Aos 32 anos de idade, ganhou uma câmara fotográfica de presente e se envolveu com a fotografia. Abandonou a carreira acadêmica e o emprego, passando a percorrer o mundo com uma câmara Leica nos ombros.
Salgado fotografa com ideologia clara e definida. Realiza uma espécie de missão, levando aos nossos olhos o que não veríamos em nossas acomodadas vidas de trabalho-televisão. Retrata o que realmente está acontecendo no mundo longe de palavras como ‘‘globalização’’ e ‘‘neo-liberalismo’’. Fotografa pessoas onde cada pequeno sulco da pele conta a história da humanidade. Invariavelmente uma história melancólica.
Dono de um estilo único, Sebastião Salgado une técnica, arte, coração e ideologia
q Trabalhadores - Uma Arqueologia da Era Industrial - de Sebastião Salgado, Editora Companhia das Letras, 400 páginas, R$ 87,70/ Livraria Bom Livro.

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