'O trabalho é o mais importante na minha vida'
Leandra Leal fala baixo, algumas vezes desvia o olhar e não titubeia ao assumir sua timidez. Características surpreendentes para quem está na pele de Elzinha, uma extravagante personagem com visual inspirado em Marilyn Monroe. ''É que ela é um 'biscoito fino', diverte-se a atriz de 26 anos, citando o bordão da personagem. Após a súbita e breve ''incorporação'' do papel, Leandra volta a baixar o tom de voz ao analisar a personagem inquieta, que por vezes se mostra extremamente sonhadora e ainda convive com o conflito de ser mãe solteira no preconceituoso final da década de 1950. ''Ela tem um tom diferente dos outros personagens da novela. O cabelo muito louro e o jeito sedutor meio romântico me permite os caminhos mais ousados na interpretação. Posso dizer que já é um dos xodós da minha carreira''.
A Elzinha é uma personagem que representa o lado glamouroso da década de 1950. É um papel emblemático da trama, que reúne características das pin-ups com inspiração em Marilyn Monroe. Como tem sido compor uma personagem com informações visuais tão precisas?
Ela é muito complexa. Ao mesmo tempo que é divertida e engraçada, tem vários conflitos dramáticos. Para acertar o tom dos trejeitos, tive de assistir a todos os filmes da Marilyn Monroe. Prestava atenção não só a cada movimento dela, mas no jeito das outras atrizes dos filmes. Essa mulher pin-up era o ponto de partida, porque ela se espelha o tempo inteiro nas divas do cinema americano. Mas ela veio muito pronta, com elementos fortes de figurino e maquiagem, que foram meu pontapé inicial. Isso já me deu armas suficientes para depois encontrar o lado sonhador dela.
Esse lado romântico da personagem é alternado com o drama de ser mãe solteira na década de 50. Mesmo assim, esse papel é sempre contornado pelo humor. Essa dubiedade traz que recursos para a atuação?
Estou aprendendo cada vez mais a brincar com a comédia, que adoro. Fiz papéis engraçados no teatro. Mas, na tevê, também tive a Viviane de A Grande Família, por exemplo. Com a Elzinha, esse equilíbrio enriquece muito, traz veracidade. Ela almeja profissões como aeromoça, mesmo sem ter nenhum preparo. Vive com a cabeça em outro lugar, sonhando com coisas inatingíveis para ela. Essas cenas são alternadas com os cuidados com a filha Lindalva, de 7 anos, que ela teve com uns 16 anos. Tem esse drama de ser mãe numa época em que a mulher seria expulsa da sociedade se descobrissem essa gravidez.
Muitas vezes você não tem de aceitar papéis pelo seu vínculo com a emissora?
Tenho a sorte de fazer coisas bacanas na tevê. E não sou o tipo de atriz que faz cinema e teatro para se reciclar. Acho isso uma visão preconceituosa com a tevê. Eu me reciclo na tevê. Sou superdefensora da televisão. Acho ridículo achar que o cinema é cult e a tevê é só comercial.
Se você se identifica tanto com a tevê, por que tem atuações tão bissextas em novelas?
Prefiro que seja assim. Minha relação com a tevê não precisa se reciclar, mas respirar. Faço uma novela, fico uns anos fora do ar, depois volto. No meio disso, faço filmes, teatro, mil coisas. Gosto de variar.
Seu primeiro contato com a atuação foi aos oito anos de idade numa pequena participação em Pantanal, onde sua mãe, Ângela Leal, vivia a Maria Bruaca. Foi ali que decidiu ser atriz?
Tudo era uma brincadeira naquela idade. Eu brincava de trabalhar. Depois fui fazer A História de Ana Raio e Zé Trovão e a Globo me chamou para a Ianca em Explode Coração. Eu só tinha 13 anos.
Em sua trajetória, você raramente cita o nome de sua mãe como influência na sua carreira. Por quê?
Somos muito independentes. Mas ela teve muita influência como amiga e atriz. Ela não foi uma mentora, não direcionou minha carreira e nunca segui os passos dela. Raramente faço essa associação porque construí uma carreira independentemente de ser a filha da Ângela. Nunca tive de comparar meu trabalho ao dela. Isso foi um ganho. O trabalho é o que há de mais importante na minha vida e tenho uma personalidade muito forte para associá-lo a alguma coisa.
Como assim?
Demorei muito para ter uma imagem de credibilidade como atriz. Sempre direcionei minha carreira com seriedade e não aceito a opinião de terceiros. Meu trabalho é o que me apóia desde criança nos piores momentos da minha vida. Ele me sustenta de todas as formas. Hoje em dia, as pessoas confundem ator com celebridade. Eu não preciso de muito dinheiro nem de fama. Apenas me sustentar e viajar uma vez por ano. Essa honestidade em não me vender por qualquer trabalho me deu uma imagem íntegra. Não vendo produtos que eu não acredito, por exemplo.
Por isso você não faz campanhas publicitárias?
Exatamente. Não faço comercial de algo que não uso, que não gosto. Com isso, consegui ter alguma credibilidade nesse meio. As pessoas sabem que não vendo qualquer coisa. Fiz apenas dois comerciais no início da minha carreira e nunca mais. Mas hoje em dia poderia fazer de coisas que eu acredito e me identifico. Não vou emprestar meu talento como atriz para qualquer produto. Eu me respeito, não sou arroz de festa, não vou a festas para aparecer em revista. Vou apenas à casa dos meus amigos. Vou em festas de gente que eu gosto, que conheço, não para ganhar brinde. Sou reservada. Se eu abrir minha vida, as pessoas vão acompanhar como acompanham novela. Isso é prejudicial para mim como atriz. Não seria um comportamento estratégico. Não gostaria de dar satisfação da minha vida.





