Até parece que ele já nasceu roqueiro, apesar de ser muito mais velho que o próprio rock. Basta andar em sua companhia para muitos quererem rasgar a toalha xadrez da mesa da cozinha, fazer uma camisa e tocar numa banda grunge.
O tênis All Star está completando 100 anos ''step by step'' com o rock. A gíria pode ser velha, mas o All Star está mais em alta do que nunca. O tiozão é o quinto elemento de qualquer banda que se preze.
Do grunge Kurt Cobain, do Nirvana, aos neo-grunges; indies; punks; otakus, aqueles caras fissurados em animes e mangás; emos e afins, ao inglês Jammie Cullum, que está reinventando o jazz... todos têm algo em comum: o bom, velho e, quanto mais encardido melhor, All Star.
O que ele tem que os outros tênis não têm? Uma conspiração contra um dos ícones americanos garante que é o mal cheiro, depois de algumas lavadas. Outra versão conspiratória pretende comprometer a fama de roqueiro do calçado ao associá-lo, no Brasil, aos pagodeiros, que acham o All Star o tênis ''da hora''.
Tudo começou em 1908 com o lançamento de uma linha de calçados esportivos, incluindo tênis de lona e sola de borracha para basquete, o famoso Converse All Star.
Daí para frente, um pitaco aqui e outro ali do jogador Charles Taylor e o tênis ganhou um novo design e nunca mais parou de sofrer mutações. Sempre com a mesma base.
Talvez seja esse o segredo do All Star para seduzir até Seu Madruga, o pai da Chiquinha, do seriado ''Chaves''; sem esquecer os rappers e Rocky Balboa, o massaranduba personagem de Sylvester Stallone, alguém que definitivamente entende de moda.
O estilista Nélio Pinheiro afirma que vários fatores contribuem para o calçado ainda ser a estrela solitária no mundo dos tênis.
''Devemos levar em consideração a praticidade e o design. Não é porque tem um design antigo que não é atual. O All Star é como a camiseta branca, que nunca sairá de moda, mas vai sendo reeditado, acoplando novos materiais. É um clássico da moda, que vem sempre acrescentando coisas, como paetês, couro de cobra, salto alto. Existe toda uma cultura do calçado, que caminha junto com o rock'', afirma Pinheiro, que já criou uma camiseta inspirada no tênis.
Dizem que All Star é indispensável também para os mochileiros porque assim eles nunca mais esquecem o caminho por onde passaram.
O tênis também tem tudo a ver com cinema. Um relacionamento que começou com James Dean, passou pelo ratinho Stuart Little, Harry Potter, e foi levado às últimas consequências no filme ''Maria Antonieta''. É isso mesmo, no longa de Sofia Coppola, Oscar de Melhor Figurino, tem lá um All Star perdido na cena que mostra o guarda-roupa da rainha.
Os roqueiros brasileiros, é claro, também andam sobre a estrela solitária. Nando Reis chegou a fazer a música ''All Star'' em homenagem à Cássia Eller: ''Seu All Star azul combina com o meu preto de cano longo''.
Os roqueiros londrinenses são unânimes sobre esse tiozão do rock: ''Uso All Star desde quando tinha uns 12 anos de idade. Foi quando descobri os Ramones. Acho que todos os que gostam de rock e que têm uma identificação visual com o punk nova-iorquino curtem o tênis'', afirma o baterista da banda New Ones, Igor Diniz, que tem uns seis pares do calçado. ''Sempre uso bota ou All Star. Não sei como é usar outro tipo de tênis''.
Completar 100 anos e com tudo em cima graças as novos desenhos e uma ajudazinha da customização não é para qualquer um, mas para os que também sabem conquistar as novas gerações.
Rodrigo Guedes, da banda indie Grenade, diz que o filho, Rodrigo, 17 anos, também está seguindo os passos no rock, calçado com um All Star. O músico garante que o tênis tem atitude. ''Acho que o rock e o All Star se fundiram principalmente pelo custo baixo. Roqueiro é tudo pobre. O grande potencializador do uso do tênis realmente é o rock'', afirma Guedes.
Para um tênis vendido em 144 países, não faltam nem declarações de amor, como essa do Nando Reis que leva o nome da ''estrela'': ''Estranho seria se eu não me apaixonasse por vc''.

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