Reconhecido e em alguns casos até invejado no exterior, o acervo da música erudita brasileira está se deteriorando, e o Brasil corre o risco de ver se perder um dos seus grandes patrimônios culturais: as obras deixadas por compositores brasileiros como Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Guerra Peixe, Francisco Braga, Alexandre Levi, entre outros. O alerta foi dado pelo compositor e maestro Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música. Ele será o destaque da apresentação da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina, hoje, às 20h30 no Cine-Teatro Ouro Verde.
A grande maioria das partituras dos compositores brasileiros encontra-se ainda manuscrita, sem cópias e muitas vezes sem condições de manusear; dificultando até mesmo a sua leitura. ‘‘Estas partituras estão em arquivos mortos, ou nas mãos das viúvas dos compositores’’, afirma Edino Krieger.
Segundo ele, até pouco tempo atrás as obras de Carlos Gomes - considerado o maior compositor de óperas das Américas - tinham apenas uma partitura. ‘‘Era impossível fazer duas apresentações de ‘O Guarani’, por exemplo. O intérprete é acusado de não se interessar pela música clássica brasileira, mas isto é uma falácia. Ele se interessa, só que é uma verdadeira odisséia para conseguir as partituras. Isto dificulta muito a divulgação da música clássica brasileira’’, analisa.
A situação é tão difícil que organizar o repertório para os concertos de música brasileira que aconteceram durante o Festival de Música na Alemanha, em novembro, foi um cavalo de batalha. ‘‘As orquestras fora do Brasil não aceitam mais as partituras manuscritas. A única exigência que os organizadores do festival fizeram foi que as partituras fossem digitalizadas’’, afirma Edino Krieger.
A Funcart assumiu este trabalho e digitalizou todo o material dos compositores que estarão sendo tocados no Festival de Música da Alemanha. ‘‘As obras de compositores estrangeiros são muito mais acessíveis. Por isso são muito mais tocadas’’, afirma Edino Krieger. Segundo o compositor e maestro, a Funcart estava digitalizando as partituras, mas o governo Collor acabou com todo incentivo à cultura, e este trabalho foi encerrado.
Agora, a Funcart está recomeçando, mas com muita dificuldade, segundo Edino Krieger, por falta de recursos. ‘‘A duras penas, este trabalho está sendo retomado, mas em uma escala ínfima, perto da necessidade’’, diz Edino Krieger. ‘‘É preciso ter um instituto que cuide do patrimônio da música brasileira’’, frisa.
Segundo ele, é necessário um programa editorial de música nacional que coloque à disposição do intérprete brasileiro as partituras, que hoje são, em sua maioria, documentos únicos e manuscritos. Para Edino Krieger, este é um trabalho que tem que ser assumido pelo poder público. ‘‘Algumas atividades artísticas, como a música erudita precisam ser subsidiadas porque não possuem um mercado consumidor’’, explica.
Digitalizar as partituras é um trabalho simples atualmente, diante da tecnologia disponível. ‘‘Para o poder público, este é um investimento ínfimo, é ninharia. Já para o compositor é impossível.’’ Segundo Edino Krieger, digitalizar uma partitura fica em torno de R$ 1.500,00. ‘‘Hoje existe uma tecnologia que facilita este trabalho. É só colocar no computador e ir editando conforme a demanda.’’
O compositor e maestro afirma que falta apenas vontade política e consciência para a necessidade de ser cuidar e preservar deste patrimônio cultural. ‘‘É um patrimônio que o mundo olha com inveja, e o Brasil despreza’’, afirma. A existência de um instituto que cuidasse das obras dos compositores rendaria para o País, segundo Edino Krieger, dividendos culturais e financeiros.
‘‘Hoje a obra de Villa Lobos está com os franceses. Quando precisamos de uma partitura dele temos que pagar royalties para eles’’, afirma. ‘‘Existe uma demanda no exterior. A obra sozinha do Villa Lobos geraria dividendos para o Brasil’’, complementa.
Falta de cultura, de vontade política e de consciência colocam em risco o patrimônio da música brasileira, de acordo com Edino Krieger. Ele ressalta que existem alguns esforços heróicos e isolados na tentativa de preservação e divulgação deste tesouro nacional, mas que são apenas gotas d’água no oceano. ‘‘‘Em algum momento a música erudita brasileira tem que sair deste estado de total indigência em que se encontra, no que diz respeito à divulgação’’, acredita. ‘‘Porque o que não falta são talentos, tanto de compositores quanto de intérpretes’’.ReproduçãoEdino Krieger: ‘‘As obras de compositores estrangeiros são muito mais acessíveis. Por isso são muito mais tocadas’’Érika Pelegrino

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