Uma obra é boa quando, isenta da preocupação de agradar imediatamente, guarda ressonâncias com a Verdade, direção que buscamos por natureza, e que, muitas vezes, sabemos que a encontramos exatamente pelo desassossego que ela nos traz.
Uma obra é prima, quando atinge o magma da natureza humana. Banhada nessa massa emocional, ela nos enlaça pelo sensorial mas principalmente pelo não-sensorial, concreta região do universo inconsciente; aí ficamos com o gosto e o cheiro e a dor e a alegria por todos os poros e temos à disposição uma farta quantidade de vivências que nos nutre por semanas e meses e anos.
Uma obra é carregada de energia quando investida de uma mola propulsora que habita textos que serão sempre atuais: o hábito de Shakespeare, de Cervantes, de Clarice Lispector, de Nelson Rodrigues acompanha, com certeza, os passos desesperados de Presley Stray, o personagem.
‘‘O terror extremo nos restitui os gestos da infância’’. A idéia de Chazal, um dos epigramas citados por Ridley no prefácio do texto, me parece a senha para a apreensão de ‘‘The Pitchfork Disney’’: estaremos todo o tempo diante de emoções primitivas; ou os primeiros tempos da infância são desenvolvidos em meio a essas emoções terríveis: é ver - sem preconceitos - para crer.
Aliás a psicanálise de Sigmund Freud, desenvolvida depois por Melanie Klein, coincidentemente na mesma Inglaterra de Ridley, mostra apreensões absolutamente sintônicas. A criança ‘‘perversa-polimorfa’’ de Freud e os ‘‘objetos perseguidos internos’’ de Klein habitam qualquer tipo de dúvidas: ‘‘pitchfork’’ é aquele garfo tridente usado na lavoura para juntar o feno, algo absolutamente primitivo para tempos de fax, computadores e animaizinhos virtuais; e ‘‘Disney’’, fatalmente, nos remete ao mundo imaginário e original da criança.
Desde o vértice, os 28 anos de Presley Stray perdem seu sentido lógico e abrem espaço para a expressão terrível dos medos e dos terrores apavorantes de um menino perdido e absolutamente sozinho no sótão de sua infância. Soterrado por vivências catastróficas condensadas em imagens de cobras e lagartos e baratas e ratos, e mergulhado em solidão asfixiantes, sobra a Presley a tentativa de alívio no chocolate, nos remédios, nas alucinações e no ritual desesperado da repetição obsessiva. Deste vértice ainda, pouco importa se Haley Stray, Cosmo Disney e Pitchfork Cavalier, os outros personagens da trama de Ridley, existe mesmo, ou são partes siamesas de Presley, desesperadas e desesperadoras tentativas que ele atinja algo que o aproxime da possibilidade fundamental de ter uma identidade.
• Edival Perrini é psicanalista, médico psiquiatra e poeta.

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