Rita Ribeiro soltou a pomba-gira em seu terreiro musical. A reverência à instigante entidade feminina do cambomblé e umbanda está numa das faixas de ''Comigo'', terceiro disco da cantora maranhense lançado pela MZA Music e com distribuição da Abril Music. Mais que uma garimpagem nos arquivos da MPB, a regravação de ''Moça Bonita'' sucesso de Angela Maria, registrado em 76 está perfeitamente enquadrada no espírito pop que Rita incorporou ao seu universo musical. Tanto que a artista dá um nome interessante à releitura da canção de Evaldo Gouveia e Jair Amorim: techno-gira.''O Brasil é um imenso terreiro, queiram ou não os evangélicos e católicos. E a pomba-gira é uma figura interessantíssima por ser, para mim, o estereótipo de mulher sestrosa e cheia de tesão e energia'', explicou Rita Ribeiro em entrevista por telefone à Folha2.
Mas nem só em pontos de macumba moderninhos se apóia ''Comigo'' há outras canções tão ou mais interessantes. Mas o que chama de fato a atenção é que Rita Ribeiro volta a girar nos CD-players com um acento muito mais pop que os trabalhos anteriores. Baladas há, mas o que prevalecem mesmo são canções suingadas, feitas para se dançar.
''Comigo'' contempla uma diversidade de gêneros como o reggae, forró, rock, samba e samba-rock. E nesse solavanco mais pop, Rita apresenta bons momentos como a faixa-título, extraída do melancólico ''Líricas'' de Zeca Baleiro), ''Nego Forro'' (um forrozinho de Chico César) e, principalmente, ''A Riqueza'', um delicioso reggae com participação do compositor, o maranhense Santacruz.
O refresco vem com a delicada ''Uma Noite Sem Você'' (João Linhares), balada romântica que ganha força principalmente pela letra. ''Chamei tanto que quase fico louco/ Quis mostrar um pouco do meu sentimento/ Que uma noite sem você é muito tempo/ Que uma vida com você é muito pouco'', diz um trecho da canção. Mas há algo frouxo que atende pelo nome de ''Essa Dona'' (Mano Borges/ Alê Muniz), um roquinho besta, besta...
Para dar à luz a ''Comigo'', Rita convocou o violonista Pedro Manguabeira para assinar a co-produção. Como de praxe, pelo menos até agora, a cantora novamente ousa ao conceber um disco com canções de compositores pouco ou nada conhecidos do grande público como os maranhaense Santacruz, César Teixeira, as paulistas e o mineiro Vander Lee.
Do time dos consagrados, Rita escalou novamente três craques: Zeca Baleiro ( seu alter ego musical), Chico César e Jorge Benjor que comparece com a maliciosa ''Caramba... Galileu da Galiléia'' uma pérola de 1972. Garimpagem também está na brejeira ''Você está Sumindo'', de Geraldo Pereira e Jorge Castro.
Se o primeiro era novidade, o segundo mais contemplativo, o terceiro disco mostra a habilidade com que Rita Ribeiro transita pela modernidade e tradição deixando marca pessoal. Muito bacana e coisa e tal. Mas é muito cedo para se falar em maturidade artística. É que Rita a cada disco deixa a entender que ainda há muitos caminhos a serem explorados. ''Comigo'' faísca possibilidades futuras e, por isso, não dá para enquadrá-la já, um, dois, três como uma artista pop com traços particularíssimos de criação. Uma coisa é certa: de acomodamento Rita Ribeiro não padece!(A.M.J.)

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