Este texto foi adaptado da palestra realizada sobre arte pública e experimentalismo nas artes no evento denominado ‘‘papo-ponte’’, no dia 25 de novembro de 2000, no MAC de Niterói, Rio de Janeiro:
‘‘A questão da arte pública coloca em pauta um problema que, já em seu enunciado, faz gerar seu contrário, isto é, se existe uma arte pública deve existir também uma arte privada. Ou seja, ela parece querer discutir um falso problema, como se a causa pudesse ser revolvida através da cura dos sintomas.
Essa denominação, arte pública, acaba se situando enquanto categoria e convenção para a manutenção da ideologia de um sistema que acredita em espaços divididos entre dentro e fora, de inclusão e de exclusão, o lá e o cá. Diz claramente que a vida é dicotômica e não holística. Que as coisas são separadas pelo bem e o mal, o rico e o pobre, o feio e o bonito. Que isso é um dado natural, científico e imutável, como se a lógica fosse a manutenção do centro em relação à periferia.
Contra o espírito desse estado de coisas é que existe a proposta de um pensamento quântico, não-linear, que se dá por aproximações, mostrando que modelos lineares como passado, presente e futuro não são mais que referências de tempo e de que termos, nomenclaturas e nomeações não são mais que aproximações para analisar certos fenômenos e não a verdade.
Portanto a idéia de uma arte ‘‘out door’’ (do lado de fora da porta) que se opõe à uma arte ‘‘indoor’’ (do lado de dentro) é uma idéia que parece querer debater algo no lugar de outra mais importante que é a própria definição da palavra arte, que, ao menos depois dos anos 60, não consegue suportar mais tanta coisa feita em seu nome. Tudo virou arte. E se tudo é arte, nada o é, também. Foi colocado no mesmo saco a arte feita pelos loucos, índios, a arte experimental, arte pública, dos drogados, das feministas, etc., esvaziando sua força evocativa a ponto de se tornar apenas rótulo de embalagem pronta para uso e consumo, inofensivamente. Ao invés da essência como alvo de nossas investigações, aceitamos a ditadura da aparência como dado certo.
O lugar da arte é por onde passa nosso corpo. É através deste corpo habitado por cada um de nós que o uso do espaço toma sentido. Primeiro porque ele não é um território fechado, como se fosse um compartimento. Ele respira, filtra, intermedia, faz a ponte entre duas situações da mesma realidade, está lá e cá ao mesmo tempo. Depois, que ele não é um objeto que possa ser entendido como suporte de representação, como se fosse somente um material e só. O corpo é.
Assim, certas diferenças como ‘‘body art’’ (corpo) e ‘‘arte ambiental’’ (paisagem), se anulam porque não há nada mais público que o corpo de cada um de nós e nem mais corpóreo que uma interferência na paisagem, alterando clima, sonoridade, visualidade, tocando nossos sentidos, que é de onde eu reconheço meu corpo.
O que importa da relação com a arte, não é sua denominação para uso específico, como se a natureza existisse para ser dominada, mas que é a partir de cada pessoa, de cada sujeito, que o mundo começa a ser criado. E descriado. O tempo todo, todo o tempo.
As conexões entre as coisas e o nome que damos a elas, seja arte, arte pública, ou qualquer outra modalidade, devem levar em consideração que há sempre um outro espaço sendo construído, que é o espaço da nossa imaginação, incorporando todas as fronteiras e limites.’’
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