O tempo de Fernand Braudel
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quarta-feira, 14 de maio de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
O tempo é um senhor ranzinza e apressado, que não espera ninguém, não fica incólume aos que passam por ele, cobrando sempre alguma coisa cedo ou tarde. Conhecer as suas vicissitudes é uma das ambições dos pensadores, como um dos grandes nomes da historiografia francesa do século XX, Fernand Braudel, que compreendeu muitos aspectos desse temperamento.
Braudel não foi favorecido pelo tempo objeto de seus estudos que mesmo arrastando os dias no período em que ficou preso num campo de concentração nazista, não fez com que esquecesse as suas pesquisas, escrevendo de memória O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II livro publicada em 1949.
Uma análise crítica de toda a obra histórica de Braudel, que morreu em 1985, é ressuscitada na segunda edição de Fernand Braudel Tempo e História, publicado pela Editora Fundação Getúlio Vargas.
Organizado pelo doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Antônio Lopes, o livro traz artigos de especialistas brasileiros e estrangeiros.
Entre os grandes teóricos, Maurrice Aymard e Immanuel Wallerstein, que conviveram com o pensador, que também morou no Brasil, dando aula na USP, entre 1935 e 1937.
Não é tarefa fácil publicar uma segunda edição de um livro no mercado editorial brasileiro, daí a importância de comemorarmos a nova tiragem. Isso significa que a obra teve uma recepção positiva, já que em menos de um ano da primeira publicação já estava esgotado. Os editores também são reticentes às republicações, preferindo os lançamentos, comenta o organizador, Marcos Antônio Lopes, que venceu as crueldades do tempo, que gosta das novidades, relegando ao esquecimento obras de mérito. Vitória ainda maior porque trata de um pensador que não é de fácil digestão.
Publicado pela primeira vez em 2003, para comemorar o centenário de nascimento de Braudel, o livro apresenta comentários sobre o historiador que inovou a visão dos tempos múltiplos da História, incluindo a idéia de longa duração.
Ao defender o tratamento interdisciplinar da História, Braudel afirma que não se pode escolher uma só ciência, mas o pesquisador deve viver em concubinato com todas as ciências humanas.
Influenciado pela Escola dos Annales, a História não poderia cultivar seu jardim sem estabelecer diálogo com outras ciências, como a Antropologia e a Psicologia, comenta o organizador. Os Annales almejavam uma História totalizante, compreendendo o homem na plenitude do seu viver.
O pensamento de Braudel leva em consideração que o tempo rompe com o cronológico e linear, elaborando a idéia de longa duração (longue durée).
Tempo e História está além dos interesses acadêmicos, dialogando também com os que esperam entender o mundo globalizado em que as reações em cadeia dos fatos se tornam um trunfo ainda maior da História.
Sem dúvida, estaríamos aplicando o modelo teórico de Braudel para explicar o tempo presente em que o conflito entre a China e o Tibet, além de determinados contextos, provoca reações em todo o mundo, comenta o organizador.
Para alguém que entendeu o tempo, Braudel soube tirar proveito dele, durante o período em que viveu no Brasil, deixando-se ser influenciado pelo País. O pensador reconheceu o choque civilizador, afirmando que muito de sua visão de mundo foi alterada. Um tempo que não se perdeu apenas na contemplação das cores tropicais, mas ajudou o historiador a se entreter com uma realidade mais globalizada.


