O tempo é um senhor ranzinza e apressado, que não espera ninguém, não fica incólume aos que passam por ele, cobrando sempre alguma coisa cedo ou tarde. Conhecer as suas vicissitudes é uma das ambições dos pensadores, como um dos grandes nomes da historiografia francesa do século XX, Fernand Braudel, que compreendeu muitos aspectos desse temperamento.
  Braudel não foi favorecido pelo tempo – objeto de seus estudos – que mesmo arrastando os dias no período em que ficou preso num campo de concentração nazista, não fez com que esquecesse as suas pesquisas, escrevendo de memória ‘‘O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Felipe II’’ – livro publicada em 1949.
  Uma análise crítica de toda a obra histórica de Braudel, que morreu em 1985, é ressuscitada na segunda edição de ‘‘Fernand Braudel – Tempo e História’’, publicado pela Editora Fundação Getúlio Vargas.
  Organizado pelo doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Antônio Lopes, o livro traz artigos de especialistas brasileiros e estrangeiros.
  Entre os grandes teóricos, Maurrice Aymard e Immanuel Wallerstein, que conviveram com o pensador, que também morou no Brasil, dando aula na USP, entre 1935 e 1937.
  ‘‘Não é tarefa fácil publicar uma segunda edição de um livro no mercado editorial brasileiro, daí a importância de comemorarmos a nova tiragem. Isso significa que a obra teve uma recepção positiva, já que em menos de um ano da primeira publicação já estava esgotado. Os editores também são reticentes às republicações, preferindo os lançamentos’’, comenta o organizador, Marcos Antônio Lopes, que venceu as crueldades do tempo, que gosta das novidades, relegando ao esquecimento obras de mérito. Vitória ainda maior porque trata de um pensador que não é de fácil digestão.
  Publicado pela primeira vez em 2003, para comemorar o centenário de nascimento de Braudel, o livro apresenta comentários sobre o historiador que inovou a visão dos tempos múltiplos da História, incluindo a idéia de longa duração.
  Ao defender o tratamento interdisciplinar da História, Braudel afirma que não se pode escolher uma só ciência, mas o pesquisador deve viver em concubinato com todas as ciências humanas.
  ‘‘Influenciado pela Escola dos Annales, a História não poderia cultivar seu jardim sem estabelecer diálogo com outras ciências, como a Antropologia e a Psicologia’’, comenta o organizador. Os Annales almejavam uma História totalizante, compreendendo o homem na plenitude do seu viver.
  O pensamento de Braudel leva em consideração que o tempo rompe com o cronológico e linear, elaborando a idéia de longa duração (longue durée).
  ‘‘Tempo e História’’ está além dos interesses acadêmicos, dialogando também com os que esperam entender o mundo globalizado em que as reações em cadeia dos fatos se tornam um trunfo ainda maior da História.
  ‘‘Sem dúvida, estaríamos aplicando o modelo teórico de Braudel para explicar o tempo presente em que o conflito entre a China e o Tibet, além de determinados contextos, provoca reações em todo o mundo’’, comenta o organizador.
  Para alguém que entendeu o tempo, Braudel soube tirar proveito dele, durante o período em que viveu no Brasil, deixando-se ser influenciado pelo País. O pensador reconheceu o choque civilizador, afirmando que muito de sua visão de mundo foi alterada. Um tempo que não se perdeu apenas na contemplação das cores tropicais, mas ajudou o historiador a se entreter com uma realidade mais globalizada.

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