A pós-modernidade instaurou uma aproximação progressiva das artes. A dança fala a língua do teatro. O teatro se molda pelas formas das artes plásticas. As artes plásticas encontram ressonância na realidade virtual. Esses vínculos arrastam adeptos das mais distintas tendências. Os diretores brasilienses Adriano e Fernando Guimarães foram capturados pela linguagem cênica em que as artes plásticas e teatro se complementam.
No projeto ‘‘Felizes Para Sempre’’, apresentado no 10º Festival de Teatro de Curitiba, a fusão entre a imagem e a palavra procura seduzir o público com o aproveitamento de outros nichos do Solar do Barão. A proposta audaciosa e bem realizada se fragmenta em três pilares. Uma instalação, no qual são acondicionados resquícios iconográficos da memória afetiva dos integrantes do grupo. A performance de jovens atores culmina em textos de Samuel Beckett. As três primeiras apresentações traz ‘‘Dias Felizes’’, com Vera Holtz.
A instalação asséptica e fragmentada dialoga com a proposta beckettiana de moldar o tempo, servindo de ritual de inicialização. Tudo é mínimo, desbastado, essencial. As fotos, os atores e o teatro. A instalação instiga o lado voyeur do público. Os atores performáticos são objetos ao mesmo tempo que conduzem o público. A instalação prenuncia o que Beckett diz posteriormente: vivemos de sinais e depois de mortos, deixamos rastros.
Em ‘‘Dias Felizes’’, o absurdo serve para refletir o caos universal. Winnie (Vera Holtz) trava um falso diálogo com o marido. A rotina lhe dá segurança, o apego aos objetos serve de muleta para lembrar sua trágica existência. Nessa lei do eterno retorno, Beckett cria um libelo contra o conformismo. Movimentar-se ou não é uma mera circunstância, quando se limita a vida ao quase nada. Winnie, vez ou outra, se vê contaminada pelo otimismo. Na impossibilidade congênita de se comunicar, se utiliza de um silêncio metafísico.
Em ‘‘Dias Felizes’’, Beckett faz do tempo um personagem. A desordem emocional de Winnie se evidencia pela desintegração da linguagem. Os fragmentos ou frases que passam pela cabeça da solitária Winnie se traduz numa forma de compreender com mais propriedade as limitações física e emocional.
No armário da memória do público fica a atuação imponente de Vera Holtz, sob a segura direção dos irmãos Guimarães. Com pequenos gestos para contar a vida, a atriz descobre as camadas da realidade rotineira. Em incontáveis nuances, Vera Holtz foi intensa, terna, engraçada, trágica e inteligente. O nonsense encontrou uma atriz ideal. A face tragicômica de Vera Holtz foi extenuamente exposta, aproximando o público da apaixonante atuação. ‘‘Dias Felizes’’ mostra que a indefectível ação do tempo traz seus benefícios para os atores.

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