O tempo como inimigo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de novembro de 1998
Celso Mattos 
O mercado de vídeo vive, no momento, a euforia da chegada às locadoras do fenômeno Titanic. Com uma campanha publicitária jamais vista, o megasucesso de James Cameron acaba ofuscando outros bons lançamentos. Entre eles, dois filmes merecem atenção do telespectador: Boleiros e O Ouro de Ulysses. São produções pequenas, simples, porém honestas e sensíveis. Boleiros é uma fita nacional, dirigida por Ugo Giorgetti, um cineasta que tem no currículo filmes como Festa e Sábado, cuja marca registrada é a leveza na condução da drama. O cineasta sempre coloca uma pitada de malandragem em seu trabalho e, Boleiros não foge à regra.
Como o próprio nome sugere, o filme fala sobre a paixão nacional do brasileiro: o futebol. Aliás, é curioso notar que o esporte, apesar de ser tão popular no País, é pouco explorado pelo cinema de ficção. A última produção a abordar o tema foi Asa Branca - Um Sonho Brasileiro, realizada há 15 anos por Djalma Limongi Batista. Mas Boleiros não é uma fita sobre o futebol jogado, mas falado. Ugo Giorgetti concentrou seu trabalho nos dramas que acontecem fora de campo, nos bastidores e na vida pessoal de cada um dos personagens. Isso faz com que o filme agrade até mesmo àqueles que não curtem muito o esporte.
Para contar a história de ex-jogadores que conheceram a fama e a decadência em proporções semelhantes, Ugo Giorgetti usa uma mesa de bar como cenário. É nesse universo de dimensões ilimitadas que os personagens, entre uma cerveja e outra, vão relatando histórias tristes e alegres sobre o mundo do futebol. Relembram com melancolia um passado de glória e sonhos que o tempo não conseguiu apagar. No fundo, Boleiros é um retrato sutil sobre a degradação que o tempo opera nas pessoas, principalmente as famosas. Como elas podem passar do anonimato à glória em semanas e, com a mesma rapidez, regredir à mais completa mediocridade.
Essa é a linha condutora das seis histórias contadas no filme. Todas emocionantes. Mas duas se destacam. A de um ex-jogador da Seleção inconformado com sua atual condição de professor de uma escolinha de futebol para filhinhos de papai e de um lateral que conheceu a fama mas que, atualmente, vende persianas em domicílio. O personagem mais emotivo é o vivido por Flávio Migliaccio, um ex-craque que, ao ver suas fotos na parede, não se reconhece, imaginando que tudo aquilo não passou de um belo sonho.
Boleiros é isso. Simples, mas comovente. É a fugacidade do instante e a permanência da memória, o fato e o registro, o real e o sonhado. É um filme sobre a perda de um sonho e a dor do esquecimento. Puramente humano. Além de Flávio Migliaccio, estão no elenco Adriano Stuart, Otávio Augusto, Denise Fraga, Lima Duarte e Marisa Orth. Lançamento da América Vídeo/Grupo Paris Filme. Duração: 90 minutos.


