Iguarias e sexo têm muito em comum. É na mesa e na cama que a humanidade passa boa parte da vida deleitando-se com a gula e a luxúria, dois pecados irresistíveis. Pensando nas fraquezas de homens e mulheres, Isabel Allende escreveu ‘‘Afrodite’’, um livro que reúne delícias da cozinha afrodisíaca através de um texto picante como o chutney bem feito.
Tudo começou quando, aos 50 anos, a autora de ‘‘A Casa dos Espíritos’’ sentiu os humores da idade. Em vez de se fechar repassando a vida com melancolia, deu asas à imaginação para descobrir e escrever o melhor de uma existência livre dos filhos pequenos e inteiramente dedicada aos jogos amorosos.
Situando o princípio de tudo num sonho em que mergulhava numa piscina de arroz-doce - quando ficou em dúvidas se procurava um psiquiatra ou um cozinheiro - ela acabou buscando parcerias para criar a obra que conta com receitas testadas por sua mãe, Panchita LLonna. Esta senhora de rosto bonachão e temperamento radical foi protagonista de um amor que parece ficção. Quando ainda era casada com o pai de Isabel, apaixonou-se por outro e não teve dúvidas: com o novo marido e os quatro filhos deixou o Chile e mudou-se para o Líbano, deixando os vizinhos envenenando-se com a própria língua. Assim, passou a vida seduzindo seu par com receitas infalíveis.
ReproduçãoCom os pratos testados pela mãe e as ilustrações de Roberto Shekter - por sinal um vegetariano - Isabel Allende criou um grande livro de cozinha, uma obra em que se devota a experimentar guloseimas criadas no mundo inteiro e que, pela tradição oral ou literária, passaram às gerações como excitantes comprovados. Seja pelo gosto inusitado da enguia ou pelo doce sabor das amêndoas, não há cultura que não dedique boa parte de sua culinária a causar surpresas que, no amor tanto quanto na mesa, fazem a vida ficar melhor. Isabel Allende - sobrinha do presidente deposto Salvador Allende - dedica páginas à cozinha de vários países, descrevendo o caviar e as omeletes com a mesma propriedade.
A obra é para ser experimentada com os sentidos. Ricamente ilustrada, traz além dos desenhos de Shekter, reproduções de telas de artistas vibrantes como Magritte ou Botero, todos dedicados a imprimir nas curvas das maçãs e dos pescados a sutileza das formas femininas.
É com olhar de artista, que a autora de ‘‘Afrodite’’ também se lança à tarefa delicada de relatar com quantos temperos se faz um bom jantar e um bom relacionamento. O livro é dedicado aos pares: namorados, amantes, maridos e mulheres de bem com a vida. Começa falando do sabor, passa pelos aromas, dedica um amplo capítulo às criaturas do mar, às carnes de qualquer natureza, trata dos queijos, dos vinhos, tudo através de um relato bem estruturado que tem o grande final com as receitas propriamente ditas. E tem molho, muitos molhos. Ela ainda contou com a perspicácia de Carmen Balcells, considerada a agente literária mais famosa do mundo, que investiu na obra porque percebeu o valor de um livro de cozinha que leva em conta muito mais que as medidas do sal e da pimenta.
A autora, que antes de escrever empreendeu uma ampla pesquisa, admite ter se apoderado de informações de mais de 50 obras e só não teve ânimo para preparar uma bibliografia. Dedicando-se mais à literatura do que às citações, ela constrói um texto divertido e sensorial. É possível imaginar lulas se contorcendo, sementes de romã ácidas e vermelhas, sentir o gosto do capuccino servido em Nova York, o sabor dos pratos do Mediterrâneo. Com um manual de cozinha e prazer tão bem escrito, é de praxe ler durante horas, devorar tudo do dia para noite. O livro também é uma garimpagem pelos textos sagrados do sexo, uma pesquisa que inclui o ‘‘Cântico dos Cânticos’’, do rei Salomão e o clássico do erotismo ‘‘Kama Sutra’’. Do leitor, as páginas só exigem sensibilidade. Porque a gula e a luxúria nas mãos dos tolos são um pecado.
• Afrodite - Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos - Isabel Allende, editora Bertrand Brasil, 325 páginas.

mockup