São Paulo, 30 (AE) - O grande risco é chamar um filme interessante de "O Tédio". No entanto, o diretor francês Cédric Kahn não tinha alternativa. Como mexer no título de um romance consagrado de Alberto Moravia? Aliás, "La Noia", no original em italiano, já havia sido adaptado, em 1964, por Damiano Damiani. Bette Davis foi "importada" dos Estados Unidos para um dos papéis da primeira versão. Diz o anedotário que ela não fugiu da resposta direta quando lhe perguntaram se havia assistido ao filme: "Trabalhar nele já foi um tédio completo, como diz o título; assistir a ele seria uma tragédia".
Nada disso poderia ser dito a sério a respeito da versão de Cédric Kahn, neste que é seu terceiro longa-metragem (os dois primeiros, Bar de Rails e Trop de Bonheur são desconhecidos no tímido mercado brasileiro). Pelo contrário. Apesar da angústia perceptível dos personagens, sente-se um inegável prazer de filmar, por parte do diretor e dos atores. O peso, que é próprio da história de Moravia, traduz-se em linguagem cinematográfica leve, inspirada. Em segundo lugar, para o espectador sensível, o resultado parece, no mínimo, estimulante, o que já está bom para um trabalho erótico, porém calibrado no existencial.
Charles Berling faz Martin, professor de filosofia aborrecido com a vida. Ele conhece uma quase adolescente, Cécilia (a estreante Sophie Guillemin), amante de um pintor bem mais velho do que ela. Quando mais tarde Martin fica sabendo que o artista havia morrido em circunstâncias estranhas, passa a se interessar mais pela garota. Os dois começam um caso amoroso, turbinado por sexo compulsivo. Nada contra a quantidade, nesse tópico particular. Mas Cédric Kahn quer passar outra idéia ao espectador. Por exemplo, que a fixação de Martin por Cécilia nada tem de "natural".
Ela não é um objeto do desejo convencional. No caso, a sua falta de physique du rôle para o papel cai como uma luva. Gordota e desajeitada, responde às perguntas de Martin de maneira monossilábica. Aliás, há mais graça, às vezes, nos diálogos - verbais - da dupla do que nas cenas em hipótese tórridas que protagonizam. Dessa disjunção entre sexo e palavras vem a estranheza e, portanto, o encanto desse filme intrigante.
Martin é um intelectual - um professor de filosofia, prof de philo, como os franceses gostam de dizer, cortando as palavras pela metade. Cécilia é de uma ignorância comovente. Martin fala, fala e fala. Cécilia responde com duas ou três palavras que parecem fazer muito mais sentido do que os discursos do parceiro. Há ainda outro "acidente de percurso" no affair, quando a garota começa a fazer sexo com outra pessoa e não esconde o fato de Martin. Estimulado pelo ciúme, ele vai redobrar seu ímpeto amoroso. Acontece e Moravia sabia disso.
O contraponto da rústica Cécilia é Sophie (Arielle Dombasle), a ex de Martin, sofisticada como ele. Como os dois fazem o gênero separados-modernos, que conversam e se ajudam mutuamente, podem também trocar confidências sobre seus casos atuais. É o que faz Martin. Na conversa com a ex-mulher, espanta-se de sentir-se atraído por uma mulher como Cécilia, que "não tem nada a ver" com ele. Impossível, para o espectador culto e para o público francês em particular, deixar de perceber a alusão ao romance entre o grande burguês Charles Swann e airosa Odette de Crécy no primeiro volume de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust. No fim do caso, Swann se faz a mesma incômoda pergunta de Martin: por que perdi tempo com essa mulher?
No entanto, como sabe o leitor, no caso do livro, ou o espectador, no do filme, o espanto dos personagens não tem lá muita lógica, porque são exatamente mulheres como Cécilia e Odette que emprestam seu secreto tempero a existências com as de Martin ou Swann. Por que e como o fazem é um dos mistérios do desejo que, como se sabe, não costuma pedir licença à razão para funcionar. No fundo, Martin e Cécilia encarnam tipos bem opostos. Um é o pensador sofisticado, porém estéril. Outra, a força da natureza, bruta, decidida, lacônica. Quem tem razão? Não é exatamente a pergunta que se faz o diretor. Ninguém tem razão, ou todos a tem, o que vem a dar no mesmo.
Cécilia e Martin são frente e verso de uma mesma realidade, esta sim sem sentido, anódina, cheia de angústia e medo, mesmo quando o que se assiste na tela é o prazer sexual buscado de maneira obsessiva. Desse mal-estar sem remédio, que se instala entre a cultura e a natureza, contaminando e corrompendo ambos, é que o filme de Cédric Kahn tira seu interesse. As indagações que põe, bem como a maneira de fazê-lo, nada têm de entediante. Muito pelo contrário.

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