O teatro vive em Londrina
Nova fase do teatro londrinense desperta ânimos, só nos últimos meses foram três grandes montagens
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de julho de 2019
Nova fase do teatro londrinense desperta ânimos, só nos últimos meses foram três grandes montagens
Walkiria Vieira - Grupo Folha 
Londrina já foi considerada a cidade do teatro e isso soma 50 anos de história, fato que deve ser atribuído principalmente ao FILO (Festival Internacional de Londrina). Embora o festival não tenha sido realizado no ano de 2018 e exista um período que os atores reconhecem como de atividades reduzidas, as recentes atrações dão sinal de uma retomada e despertam os ânimos - tanto de quem faz da arte ofício, como quem se nutre dela.
Três apresentações recentes marcam este momento. "Um Bourbon para Faulkner", “Tango”, e “Balada de um Palhaço” - este último em cartaz - são exemplos da volta por cima do teatro e enriquecem a vida cultural da cidade e de toda a região. O espetáculo "Um Bourbon para Faulkner", baseado no livro de mesmo nome e escrito pelo londrinense Marco Antonio Fabiani, retornou aos palcos londrinenses no teatro do Sesi em fevereiro deste ano, depois de estrear em novembro de 2018. Em cena, os atores Apolo Mario Theodoro (que deu vida a Faulkner), José Donizetti Buganza (João Clark) e Bruno Bazé, que interpretou vários personagens. Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir, o espetáculo volta a ser encenado gratuitamente nos dias 1 e 2 de agosto, no Centro Cultural Sesi/AML.
Para o ator Apolo Mario Theodoro, um momento ímpar. “É ao mesmo tempo natural e muito bom ver os velhos atores retornarem à cena. O teatro de Londrina tem uma história muito rica. Já nos anos 50, o GPT [Grupo Permanente de Teatro] e o Festival Universitário, do qual sou um dos fundadores com uma série de atores, marcaram a história. Foi uma escola muito rica para todos nós, tínhamos contato com profissionais do eixo Rio-São Paulo, acompanhávamos montagens, fazíamos cursos e agora é como se tivéssemos um momento de renascimento”, expõe. Integrante também do Grupo de Teatro Núcleo 1, dirigido por Nitis Jacon, o ator recorda a apresentação em 1972, da escritora Hilda Hilst.
Já a apresentação do espetáculo “Tango”, dirigida por William Pereira, estreou no início de maio no Teatro Ouro Verde, em Londrina, e marcou a volta do grupo Proteu (Projeto Experimental de Teatro Universitário) comemorando os 40 anos da formação londrinense, além da confirmação de novos talentos. No palco, os jovens atores Luan Valero e Maíra Kodama, além dos veteranos Maria Fernanda Coelho, Mira Roxo, Poka Marques, Remir Trautwein (que faleceu durante a montagem), Rogério Costa e Sergio Mello. Marques destaca a relevância do momento. “Foi mágico”, resume. O Proteu ficou em atividade de 1978 a 1996, quando montou mais de 20 espetáculos de circulação nacional e internacional e recebeu diversos prêmios.
A menos de 15 dias da estreia de “Tango”, o falecimento do ator e chef de cozinha Remir Trautwein, um dos integrantes que se preparou para essa volta, entristeceu a todos. “Todo o processo foi conduzido de maneira muito cuidadosa, nos unimos muito e durante os noites de ensaio houve uma troca muito bacana. Depois de tanto tempo, eu me senti muito à vontade no teatro, pois vivemos tempos difíceis quando começamos.” O grupo Proteu foi criado por Nitis Jacon em plena ditadura militar em 1978 e fez sua participação também em diversas montagens do FILO e do FIML (Festival Internacional de Música de Londrina).
O ofício do ator é nobre. Na diminuta participação ou em monólogo, a arte se faz presente e arrebata o público graças à capacidade de criação, interpretação e as emoções que provoca. A atriz Maria Fernanda Coelho observa com muita alegria o momento presente. “Londrina sempre foi uma referência para o teatro brasileiro, um laboratório de novos atores e essa recuperação é até reflexo do que estamos vivendo e da necessidade de voz. O melhor: a cidade responde.” A atriz enaltece ainda a vocação da cidade para a arte. “Não podemos esquecer que Londrina sempre esteve na vanguarda dos movimentos culturais até mesmo em relação aos grandes centros. Esse é, sem dúvida, um reencontro com o teatro”. A atriz também considera que o público tenha sede de arte. “Tivemos três dias de casa lotada no Teatro Ouro Verde, o que prova o interesse pela arte, o público gosta da gente, pois levamos reflexão e alegria. E emenda: “O palco sempre foi uma tribuna livre e voltamos a ocupá-lo com força total e não devemos nos esquecer da importância de todo o Proteu, Mario Bortolotto e Adriano Garib, Mario Fragoso e Poka”, cita. De acordo com a atriz Maria Fernanda Coelho, “Tango” volta a ser apresentado na próxima edição do Filo.
Do ponto de vista da produtora cultural Christine Vianna, existe um público carente de apresentações. “O público tem aclamado as produções desde que a informação chegue a ele. Temos que chegar para aquele que já gosta, assim como formar público que ainda não conhece teatro”, explica. Dessa forma, a formação educacional tem papel importante nesse processo de conhecimento. “Sempre busco parcerias com escolas de acordo com a faixa etária, fazemos promoções que vão além das oferecidas à classe estudantil, além de visitas a museus e teatros, tudo é parte da formação”, reflete. Vianna é produtora de "Um Bourbon para Faulkner" e “Balada de um Palhaço”. O segundo coloca em cena dois palhaços, um interpretado por Mario Fragoso e outro por Luiz Eduardo Pires. O texto foi escrito por Plínio Marcos em 1986.
O diretor e coordenador da Escola Municipal de Teatro, Silvio Ribeiro, compartilha o sentimento de resgate e valorização dos atores e do teatro como um todo. “Serve de motivação a todos, inclusive resgata um público bacana e verificamos o reconhecimento aos atores nas bilheterias, algo muito positivo diante do teatro, essa forma tão especial de expressão”. Ribeiro não nega uma fase de vazio na cidade. “Nos últimos anos, houve um recrudescimento, mas não podemos ignorar, a tradição é maior.
Luan Valero, jovem ator que atua em “Tango”, é diretor, escritor e soma 11 anos de profissão artística. Atualmente integra a Companhia Boi Voador e o Núcleo Às de Paus. “Do ponto de vista das políticas culturais, existe uma tentativa de desmonte que começa na esfera federal com uma gestão que nunca teve a cultura como pauta e sempre declarou vários equívocos, esse reflexo chega até aqui, embora Londrina tenha uma política muito interessante em relação à cultura. Mas esse desmonte reverbera aqui e vemos impactos, em relação ao Sistema S (Sesc, Sesi, Senac) e em relação ao FILO, por exemplo. É um momento delicado, mas ao mesmo tempo os artistas estão unidos e organizados, produzindo muito e há uma programação intensa, com trabalhos de qualidade que ficam distribuídos durante o ano todo, em sua maioria bastante democratizada em relação ao acesso. É claro que as periferias e os distritos têm sede de muito mais, mas enxergo como boa a produção recente”, afirma.
O Rádio Teatro, a consolidação do Proteu na década de 1980, o trabalho de Mario Bortolotto que se firmou como dramaturgo em São Paulo e todo o seu trabalho no Cemitério de Automóveis, assim como o de Paulo de Moraes, diretor do Armazém Companhia de Teatro - fizeram de Londrina uma referência nacional.
O ator José Donizetti Buganza, encara como muito significativa essa recuperação. “Dá um novo fôlego e temos de lembrar que já estivemos na frente até de Curitiba. Houve um recrudescimento de todas as artes, alguns artistas foram buscar outros horizontes, mas muita atividade persistiu. O curso de artes cênicas, o Funcart sempre atuante e esse novo tempo nos dão otimismo e ajudam a formar e a recuperar o público”, afirma.
Os coros cênicos também recebem o devido reconhecimento de Buganza. “Londrina já teve quase 20 grupos teatrais em seu auge." Um exemplo é Chaminé Batom, que teve componentes como Simone Mazzer, Elton Mello, Ricardo Grings e Carlinhos Rodrigues. “Não podemos deixar de lembrar sobre a importância do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC)e de toda uma rede que se movimenta com as atrações que chegam à cidade. Além de toda a comunidade ter a oportunidade de prestigiar belos espetáculos a preços acessíveis e até gratuitos, outros trabalhadores ganham com isso: marceneiros, costureiras e maquiadores”, dá exemplos. “A cultura gera empregos, é fonte de renda”, reforça.


