Espetáculo dirigido por Lino Rojas privilegia personagens urbanos e será mostrado na Praça Tiradentes
DivulgaçãoLino Rojas, diretor de ‘‘Mingau de Concreto’’

Cena de ‘‘Mingau de Concreto’’: atores criam tipos a partir de personagens das ruas
l de Teatro de Curitiba




Jackeline Seglin
Enviada a São Paulo
Trabalhar o ator eminentemente orgânico, com uma máscara natural, é a proposta do diretor peruano Lino Rojas no espetáculo que será apresentado hoje na mostra oficial do 9º Festival de Teatro de Curitiba. Às 16 horas, a companhia Pombas Urbanas, de São Paulo, mostra na Praça Tiradentes a montagem ‘‘Mingau de Concreto’’.
A peça, em cartaz há quatro anos, é resultado de um projeto de Rojas que partiu da experiência dos atores com o ambiente e os personagens das ruas de São Paulo. ‘‘A grande maioria do grupo era formada por office-boys, que todos os dias seguiam do bairro para o centro de São Paulo. Nesse trânsito, eles cruzavam personagens que apresentavam incríveis histórias’’, conta Rojas, radicado no Brasil há quase 30 anos.
São figuras que perambulam pela Praça da Sé, Vale do Anhangabaú, Avenida São João, Teatro Municipal e tantos outros lugares da capital paulista. ‘‘Num desses pontos encontramos Kelly Cratera, já senhora, mãe de um filho. Ela, que contou suas experiências com homens na rua, dizia: Eu era tão gostosa que até meu xixi parecia perfume’’, lembra.
Outras figurinhas como Chiclete de Onça, um desses brigões de rua, Perfume Francês, o velhinho paquerador, ou Lady Di, um travesti decadente, serviram de base para a montagem. ‘‘São quase 20 personagens. Para criá-los, os atores comiam, bebiam e conviviam com essas pessoas na ruas’’, observa.
Lino Rojas montou o Pombas Urbanas há 10 anos, com um grupo de 30 jovens da periferia de São Paulo procedentes de um curso de formação do Senac. ‘‘O processo de assimilação do Pombas Urbanas é o trabalho com forças humanas que estão em situação de risco, de limite. E eu queria abrir espaço na arte para organizar a vida desses garotos, como acontece no futebol’’, diz. Atualmente, os jovens, com média de 25 anos de idade, têm um apartamento-sede no centro de São Paulo, que funciona como casa e local de ensaio do Pombas Urbanas.
Militante do movimento de renovação do teatro peruano, Lino Rojas veio para o Brasil em 1975, a fim de estudar Teatro Brasileiro na Universidade de São Paulo. Depois de uma série de pesquisas, apresentou o projeto ‘‘Teatro e Comunidade’’, com o qual trabalhou com garotos entre 12 e 16 anos, que tinham uma referência de família, de trabalho e o desejo de estudar. ‘‘Um núcleo que aglutinava este perfil era o bairro São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo’’, detalha.
A experiência foi aplicada a outro espetáculo do grupo, que faz sua estréia nacional no Festival de Curitiba. No final de semana, o Pombas Urbanas apresenta ‘‘Uma Baleia Perto da Lua’’ na Mostra dos Incluídos.
FICHA TÉCNICA
Texto: Lino Rojas e Cia. Pombas Urbanas
Direção: Lino Rojas
Elenco: Adriano Mauriz, Juliana Kaufman, Kátia Alexandre, Lino Rojas e outros
Figurinos: Paulo Carvalho, Juliana Kaufman e Márcio Tadeu