O teatro vai à escola sem censura
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segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
A história da escrava ''Anastácia'', que após ser violentada e nunca ter aceito o assédio do seu feitor Joaquim Antonio, é condenada a usar pelo resto de sua vida uma máscara de ferro, chamada de ''flandres'', que somente era retirada para a sua alimentação, é o fio condutor para mostrar a condição da mulher negra diante da exploração sexual do homem branco. Através de performances cênico-musical, o espetáculo, que é resultado do ''Projeto Anastácia: Teatro Político, Pedagógico e de Contestação'', vencedor do Prêmio Myriam Muniz de Teatro realizado pela Funarte/ Ministério da Cultura, com Patrocínio da Petrobrás, tem como proposta se apresentar em dez escolas estaduais de Londrina. ''O objetivo é levar a linguagem teatral para as escolas públicas de periferia, onde os alunos têm menos acesso a esse tipo de cultura'', explicou o ator Marcos Antonio da Costa, idealizador do projeto. Personagem histórica do Brasil do século 18, Anastácia, que tinha olhos azuis, para muitos é considerada uma santa e uma heroína - símbolo da resistência diante da violência e exploração do homem branco sobre a mulher negra.
Na semana passada, a peça foi apresentada para os alunos do Ensino Médio do Colégio Estadual Adélia Dionísia Barbosa Cileide, do Conjunto Parigot de Souza III (região norte). Antes da apresentação alguns alunos deram a sua opinião sobre o tem do preconceito. A aluna Amanda Dias, 16 anos, afirmou que a mulher, independente da cor, ainda sofre preconceito na hora de procurar emprego. ''As mulheres são muito capazes, mas ganham menos. E a mulher negra sofre mais preconceito'', disse a aluna, que também trabalha como atendente em uma loja de assistência técnica de celular. Já o aluno Henrique Santos, 17 anos, defendeu que as leis atuais impedem que haja preconceito. ''Não acho que exista racismo e, pelo menos onde eu vivo, todo mundo é igual. E acho uma vitória os negros terem conseguido o sistema de cotas, que tem que continuar'', abordou o aluno, que trabalha como mecânico.
A peça começa retomando a história da vinda da mãe de Anastácia, Delminda, que após ser capturada na África - onde era rainha de origem Bantu -, chega ao Brasil e é violentada pelo seu feitor Antonio Rodrigues Velho. Permeada por cantos e teatralidade, a montagem vai se delineando até chegar ao nascimento da Anastácia, fruto de um ato de violência sexual. No final, relata-se a história também verídica de uma mulher afrodescendente da atualidade, moradora de Londrina, que tem que cuidar de três netos deixados pela filha que nasceu com problemas mentais e cujos filhos também foram resultados de atos de violência sexual, sendo que a filha morreu de complicações de parto. Como reflexão, a platéia é questionada a definir o que é liberdade e amor fraterno e como é possível mudar essa história que tristemente se repete.
Com um aparato percussivo bem variado, o espetáculo apresenta os ritmos afros vamunha, agerê, apanigé, congo de ouro, barra vento e cabula, com marcação de toques utilizados no candomblé de Keto e de Angola.
A concepção, texto e direção é de Marcos Antonio da Costa. O elenco é composto de Fernanda Lima, Kco Almeida, Márcio Aurélio Elesbão, Robson Arantes e Vaninha Paiva. O projeto ainda inclui debates com alunos e professores sobre a importância da arte como meio de expressão e conscientização sobre os problemas de preconceito e discriminação racial.
Já estão previstas apresentações nos colégios estaduais Ubedulha Oliveira, Lúcia Barros, Ana Molina Garcia, São José e José Carlos Pinotti.


