O teatro tem que se cuidar
O ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri está fora dos palcos desde meados do ano, quando encerrou a temporada de Anjo na Contramão, escrito a quatro mãos com seu filho Cacau. Era época de Copa do Mundo. Depois aceitou trabalhar na novela Serras Azuis, produzida pela TV Bandeirantes; e com o final das gravações, emendou um novo trabalho - será Manuel, o Portuga, em O Meu Pé de Laranja Lima, próximo cartaz da emissora.
Ele passou os últimos dias em Curitiba, como convidado especial do projeto Literatura Viva, promovido pelo Colégio Positivo. A montagem teatraliza romances que poderão ser incluídos nos vestibulares. O ator participou declamando Carlos Drummond de Andrade.
Antes de junho ou julho de 1999 vai ser muito difícil Guarnieri voltar ao tablado. Antes, quer escrever uma peça que fale sobre o teatro nacional nos dias de hoje: afinal, o que ele é, para onde ele caminha? O teatro tem que ter cuidado com sua própria existência e dizer o porquê dele estar aí.
Para o autor de Eles Não Usam Black-Tie, a arte não pode ficar a reboque do modismo, como vem acontecendo. Alguém faz uma comédia de sucesso, todo mundo faz. Pintou um besteirol, aparece outro tanto até a exaustão. Temos que entender que o teatro deve cumprir sua função artística e social dentro da maior qualidade possível.
A televisão deixou de ser entretenimento das casas para comandar a estética dos palcos. A influência é muito grande, comenta o ator e dramaturgo. O faz-de-conta superficial tomou conta da cena. O mais terrível de tudo é que se abriu mão do teatro de conteúdo, lamenta Guarnieri. O artista é um clown, mas ele tem que entender seu País, sua gente, saber filtrar esse mundo e devolver, através do espetáculo, tudo aquilo de forma mais leve.
Enquanto não arranja tempo para escrever a próxima peça, o ator vai vivendo. Agora ele é o Portuga, na novela marcada para estrear em 1999. Meu Pé de Laranja Lima, foi originalmente apresentada na TV Tupi, numa adaptação de Ivani Ribeiro, sobre o best seller de José Mauro de Vasconcellos. Guarnieri participou desse trabalho; era Ariovaldo, cantador nordestino de modinhas.
A novelista Ana Maria Moretzon atualizou o enredo para os dias atuais, reduziu os personagens e coube ao ator ser o rico português que fica amigo de Zezé, o menino que ameniza a solidão em que vive conversando com um pé de laranja lima.
Para o ator, com seus 40 anos de vida artística, é quase intrigante ver como as crianças desta geração são íntimas da máquina. O artista mirim que defende o papel principal - eu o conheço apenas por Caio - é um ruivinho sensacional, garoto muito inteligente, muito esperto.
Caio, que anda na casa dos sete anos, tem também um irmãozinho ainda mais novo, que na novela será Luiz, a quem Zezé transmite suas fantasias. Os dois não se assustam com a parafernália de luzes e cenários. É impressionante a intimidade com a câmara, admira-se o veterano. É preciso, agora, que o mesmo aconteça em relação ao palco.ReproduçãoGianfrancesco Guarnieri: O teatro deve cumprir com sua função artística e social dentro da maior qualidade possívelZeca Corrêa Leite





