O teatro invade as celas
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de maio de 2002
Francelino França Reportagem Local 
A idéia da inserção social dos presidiários através da arte aparece fortalecida no Filo este ano. As mazelas das prisões também são enfocadas em espetáculos provocativos como Apocalipse 1,11
A linguagem teatral atravessou portões e celas nessa edição do Festival Internacional de Londrina (Filo). Os internos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL) e as mulheres presas no 2º Distrito Policial tiveram acesso aos instrumentos do discurso cênico. O foco de atenção recaiu sobre o alcance do teatro como forma de reabilitação e inserção social. Também a antiga Cadeia Pública, construída há 61 anos, virou palco para a mais aguardada encenação do Filo. Apocalipse 1,11, com o grupo Teatro da Vertigem, de São Paulo, do diretor Antônio Araújo, abriu os portões do Cadeião para apresentar nos corredores e celas a versão hiperbólica do Brasil contemporâneo.
Esse passe livre do teatro no barril de pólvora chamado sistema penitenciário brasileiro ainda é incipiente e inverte a ordem dos fatores ao dar uma função social às pessoas privadas de liberdade. O teatro existe nos presídios, no máximo, como instrumento de prevenção a Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, o que já representa algo.
Na PEL, os internos participaram da montagem do texto medieval O Pastelão e a Torta, dirigido por Alexandre Mendes, de Londrina. A apresentação aconteceu no Dia das Mães e mesclou recursos da Commedia DellArte, rap e capoeira. No trabalho desenvolvido por Alexandre Mendes na PEL, o diretor percebeu de imediato o respeito por quem vai permutar conhecimentos. As pessoas acham que os internos não te respeitam. Mas é totalmente diferente. Eles estão machucados internamente e quando é proposto um trabalho com teatro, eles abraçam mais intensamente de que outros grupos, considera o diretor.
No 2º Distrito, Jacqueline Roumeau e Gonzalo Dominguez trouxeram do Chile a experiência inovadora para os padrões brasileiros de profissionalizar presas para o teatro. Desde 1998, Jacqueline Roumeau trabalha com o teatro testemunhal e dá visibilidade a histórias vindas de uma realidade desconhecida. No Chile, a Corporação de Artistas pela Reabilitação e Reinserção Social Através da Arte Coartre atua como forma de reabilitar os encarcerados pela experiência artística. O teatro pode reabilitar mais rápido porque trabalha com a sensibilidade artística, disse Jacqueline Roumeau, em entrevista à Folha2. Juntamente com Gonzalo Domingues, ela trabalha com mulheres presas no 2º Distrito Policial, nos projetos sócio-culturais do Filo.
Na metodologia de trabalho do teatro testemunhal, primeiramente é feita uma investigação pessoal, como uma entrevista jornalística. Há um fundo terapêutico nessa etapa. Faço um trabalho como em qualquer companhia profissional, explica. São nove meses de atividades que envolvem todas as etapas de produção de uma peça. Só os mais fortes continuam, aqueles que têm gana de trocar o destino através do teatro, revela a diretora.
Com as internas do centro penitenciário feminino de Antofagasta (Chile), Jacqueline Roumeau encenou Pabellon 2 Rematadas, peça que retrata o destino da mulher e o problema do narcotráfico. No Centro de Cumprimento Penitenciário, a diretora assinou a montagem de Colina 1 Tierra de Nadie, uma crítica ao sistema político social, com seis atores que cumpriram temporada em teatros do Chile como qualquer grupo profissional.
Mesmo se valendo de um forte conteúdo terapêutico, o teatro nos presídios não pode ser usado como forma de terapia ocupacional. Vou fazer um trabalho artístico. Não tenho pena deles, diz. Em Santiago, a crítica especializada considerou Colina 1 muito melhor que várias montagens profissionais chilenas.
Jacqueline Roumeau considera que as internas do 2º Distrito têm muito talento. Elas participam da montagem de um Cabaret em que a música e dança, são costuradas com a escritura dramática feminina. Como num espelho, elas vêem seus horrores. Com o teatro elas sentem que podem conquistar algo na vida e mudar o seu destino, avalia. Mesmo se sentindo falando no deserto, Jacqueline Roumeau criou a Rede de Teatro Carcerária, que promove um Festival de Teatro Carcerário, no Chile, em que os grupos formados nos presídios mostram a liberdade nos domínios do palco.
Aqui (Brasil) está muito atrasado, constata Jacqueline Roumeau, diante da terrificante realidade das mulheres do 2º Distrito. Recentemente, a seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), diante de seguidas rebeliões ocorridas nos presídios propõe reformas no sistema carcerário. Em nenhum item a arte foi incluída como forma de reabilitação e inserção social. Diante da realidade do sistema penitenciário, há uma luta desigual para desarticular esses verdadeiros centros de aliciamento e preparação de quadros para o crime organizado.
...rebelião termina com dois mortos e dois feridos. Presídios passam dia em estado de alerta temendo rebeliões.... Os presídios abastecem os noticiários diariamente com fatos em que a realidade ultrapassa a ficção. A variação de uma notícia para outra parece estar acontecendo somente na equação final de mortos e feridos e na forma como foram executados. A mídia só mostra o lado obscuro, eu mostro o lado claro, garante Roumeau.
Quando estreou Apocalipse 1,11 em 1999 a situação dos estabelecimentos prisionais era o mesmo, com o contingente dos presídios chegando a recorde histórico e as rebeliões pipocando todos os dias. Quando estreamos, o poder político nos presídios não era explícito. Isso se acirrou agora, salienta Antônio Araújo. Isso não é privilégio do Rio de Janeiro e São Paulo. No Paraná, já existe um partido do crime (PCP Primeiro Comando do Paraná).
Em 3 de outubro completam 10 anos da invasão pela tropa de choque pela Polícia Militar no Presídio do Carandiru, em São Paulo, quando morreram 111 presos. O Carandiru se tornou o símbolo do fracasso do sistema penitenciário brasileiro. Em Apocalipse 1,11 há uma releitura do massacre. Araújo pretende levar a peça para aquele cenário sinistro, antes da completa demolição do lugar.


