O teatro em linguagem coloquial
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de setembro de 2002
Francelino França 
Os protagonistas da cena teatral brasileira estão inquietos e buscam caminhos para o teatro nesse início de milênio. Prova disso, são as reflexões sobre a realidade do teatro atual reveladas no livro ''Odisséia do Teatro Brasileiro'', lançado na semana passada pela Editora Senac, em São Paulo. O livro é resultado de um fórum promovido pelo Ágora (Centro de Desenvolvimento Teatral), de São Paulo, sob o comando de Celso Frateschi e Roberto Lage. A organização da obra é de Silvana Garcia, professora da ECA/USP e diretora da divisão de pesquisa do Centro Cultural de São Paulo.
O poema épico Odisséia, do grego Homero, estabeleceu o formato do ciclo de debates em que foram reunidos 17 artistas/pensadores, em agosto de 2000. Alguns protagonistas de movimentos históricos, como o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), o Teatro Oficina e o Teatro Arena, relatam suas experiências do ponto de vista emotivo.
Os capítulos foram divididos em ''Guerra de Tróia'', ''Telêmacos ou os Pretendentes de Penélope'' e ''Os Ulisses Retomam Ítaca''. Juntamente com as ponderações de cada integrante da odisséia reflexiva, há fragmentos dos diálogos com o público.
Com a linguagem coloquial das falas e o tom descontraído dos encontros, o livro é para ser devorado de um único fôlego. A autenticidade dos depoimentos e tom confessional aproxima a temática do leitor. ''Odisséia...'' é uma retrospectiva da história recente do teatro brasileiro na voz de quem protagonizou os episódios. Ao decantar os 17 depoimentos, percebe-se uma ''mea culpa'' generalizada pela atual situação do teatro no Brasil. Esse panorama de agentes do teatro brasileiro revela que nesse ofício é preciso se posicionar diante da sociedade.
O diretor Fauzi Arap advoga a idéia que é preciso buscar um tipo de teatro que possa interagir. Outra questão importante se refere à ausência de articulação com idéias ligadas com a realidade atual do país. O diretor e cenógrafo Gianni Ratto reivindica uma presença maior de poetas e dramaturgos: ''quando a poesia está presente, quando a dramaturgia é rica realmente, a temática é provocadora, nesse momento o teatro se realiza.''
Dentre os participantes da odisséia, o diretor da Cia. do Latão, Sérgio Carvalho, se posiciona de forma contundente. Para ele, uma das grandes dificuldades hoje é reconquistar um olhar livre sobre a realidade: ''porque são tantas as camadas ideológicas, é tamanho o culto ao personalismo narrativo, à empatia fácil, às soluções mistificatórias, à crença em comunidades ilusórias, à redenção sem trabalho, à dissolução dos atritos''.
A tevê não foi considerada vilã, pelos encenadores, mas eles admitem a interferência do veículo no empobrecimento da linguagem teatral, no patrulhamento do público em relação ao tempo dos espetáculos e à alienação do trabalho do ator.
Augusto Boal, do grupo Teatro do Oprimido, relatou sua experiência internacional e no Rio de Janeiro, onde deu visibilidade até ao grupos formado por empregadas domésticas. No panorama atual do teatro brasileiro, o trabalho estabelecido em bases coletivas, com uma conexão direta com os dramaturgos, faz o diferencial. Um dos exemplos mais representativos é o grupo Teatro da Vertigem, responsável pela montagem da trilogia bíblica em espaços alternativos.
Poucas publicações sobre a fase atual do teatro do País aparecem na seara do mercado editorial brasileiro. A organizadora do livro ''Odisséia do Teatro Brasileiro'', Silvana Garcia, acredita que as publicações existentes são absolutamente insuficientes. Em entrevista à Folha2, a professora observa a diminuição do espaço que o teatro possui na imprensa. ''O interesse é flutuante, como aconteceu com a visita de Peter Brook ao Brasil. O teatro rivaliza com a dança e perde espaço para a tevê, cinema e até artes plásticas'', constata. Por isso, uma publicação como essa se torna material de consulta.
Em São Paulo, os eventos ligados às artes cênicas chegaram ao patamar de 700, em 2000; e 300, em 2001. Mesmo para São Paulo é uma quantidade superlativa. De acordo com Silvana, hoje há uma diversidade de público e que se encontra pulverizado. ''O sentimento de perda de espaço e de público tem afetado e preocupado muito a classe teatral'', ressalta Silvana Garcia.
Serviço: ''Odisséia do Teatro Brasileiro''. Organização: Silvana Garcia (Ed. Senac, 307 págs, R$ 35). Com a participação de Gianni Ratto, Fauzi Arap, Aimar Labaki, Gianfrancesco Guarnieri, Fernando Peixoto, Sérgio Carvalho, Eduardo Tolentino, Enrique Diaz, Antônio Araújo, Aderbal Freire Filho, João das Neves, Márcio de Souza, Luiz Paulo Vasconcellos, Paulo Autran, Augusto Boal, Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa.


