“O teatro continua sendo um lugar de lucidez”
Integrante do grupo paulistano Cia do Latão, o ator paranaense Ney Piacentini defende a retomada de um teatro mais politizado para enfrentar o atual momento de obscutantismo que o país atravessa
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sábado, 17 de agosto de 2019
Integrante do grupo paulistano Cia do Latão, o ator paranaense Ney Piacentini defende a retomada de um teatro mais politizado para enfrentar o atual momento de obscutantismo que o país atravessa
Marcos Roman - Grupo Folha 
Integrante da Cia do Latão - um dos grupos de teatro mais politizados do país - o paranaense Ney Piacentini tornou-se um referência das artes cênicas nacionais. Radicado na capital paulista, o ator participou do Filo na última quinta-feira (15) apresentando uma aula-espetáculo e lançando o livro “O ator dialético: 20 anos de aprendizado na Companhia do Latão” (Hucitec Editora). Em um bate-papo com a reportagem da FOLHA, o artista falou da experiência acumulada com a atuação em mais 50 espetáculos teatrais e sobre a importância do teatro principalmente em tempos de obscurantismo como o que o Brasil atravessa atualmente.
“Neste momento estamos recuados, há um arrefecimento devido à pressão devastadora que vem de cima para baixo. Não tem como esconder isso. Se olharmos no arco do tempo, houve muitos períodos nos quais o teatro minguou e ressurgiu. O mais importante é a gente continuar lutando, pois o teatro continua sendo um lugar de lucidez, de fraternidade, de resistência”, afirmou o ator.
Apesar dos recentes cortes de verba responsáveis pelo desmonte na área cultural do país, Ney acredita em tempos melhores para a arte nacional. “Em épocas de precariedade, o teatro vem com mais força e daí pode surgir algo muito criativo e potente. Temos que batalhar politicamente e institucionalmente para que programas ligados à arte permaneçam ou sejam retomados. Paralelo a isso, devemos lutar e mostrar que conseguimos fazer nossa arte com muito pouco. Se for preciso carregar cenário, a gente carrega. Se tiver que andar a pé, a gente anda. Precisamos ter consciência de que estamos numa guerra e instituições como a ONU (Organizações das Nações Unidas) mostram que mesmo em áreas de conflito existem formas de apresentar espetáculos”, argumenta.
Na avaliação do ator, a crise no setor cultural exige a volta de um teatro mais politizado, a exemplo do que representou o Teatro de Arena e o Grupo Opinião, modelo seguido pela Cia do Latão. “Nós chegamos a ser saudados no final dos anos 1990 como a ponta de lança do que estaria por vir, por apresentarmos textos preocupados com a nação, com a situação de vida da população”, destaca ao lembrar o período em que passou a integrar o renomado grupo paulistano.

“Nasci em Campo Mourão e vivi na cidade até os 13 anos. Depois me mudei para Curitiba e na sequência fui cursar Engenharia Civil em Florianópolis. Durante a faculdade acabei me inteirando de outros assuntos por meio dos textos que passei a ler. Foi aí que descobri o teatro e me apaixonei pela atuação. Passei a fazer parte de grupos catarinenses e fiz pontas em uma emissora local de TV. Parte desta equipe televisiva se mudou para São Paulo e convidou para ir junto. Em 1985 conheci o Sérgio de Carvalho, fundador da Cia do Latão e, desde o primeiro trabalho que fizemos juntos fiquei impressionado pela atenção matizada, elaborada e atenta com que ele conduz os atores”, enfatiza Ney, que fala do processo criativo do grupo no livro “O ator dialético: 20 anos de aprendizado na Companhia do Latão.”
A experiência adquirida nos palcos e em mais 30 filmes de cinema nos quais atuou é compartilhada por Ney com jovens atores. “Comecei dando aulas de teatro para crianças e à medida em que fui ampliando as informações passei a ensinar adolescentes e adultos”, diz o ator que atualmente é professor temporário do curso de Artes Cênicas da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). “Percebo que entre os atores da minha geração havia um interesse maior quanto ao texto e, consequentemente, a atuação surgia no mesmo viés. Hoje em dia é difícil isso porque todo mundo tá o tempo todo com aparelho de celular nas mãos e vivemos na era das informações instantâneas. No entanto, seria leviano dizer que essa geração é mais supérflua que outras, porque dali podem surgir coisas muito interessantes como, por exemplo, fazer espetáculos com o uso de tecnologias diversas para falar sobre valores humanos”, avalia.
Com títulos de mestrado e doutorado em artes cênicas, o ator se prepara para uma nova investida na área acadêmica. “Estou me preparando para um pós-doc que deve render um novo livro. Vou falar sobre a história da atuação no Brasil, desde João Caetano até chegar nos atores contemporâneos. É um trabalho bibliográfico. Já entrevistei grandes nomes da dramaturgia como Lima Duarte, Laura Cardoso e Cacá Carvalho, entre outros”, revela.


