ReproduçãoCarla Perez: ‘‘Fui a primeira a botar o bumbum para trás e tremer’’A loura mais famosa do Brasil descobriu um ‘‘instrumento de trabalho ’’, como diz, que já tem fama internacional: seu previlegiado traseiro na Dança do Bumbum. Carla Perez, 19 anos, foi notícia no jornal inglês ‘‘The Sun’’ depois de uma carreira meteórica, que lhe rende hoje R$ 18 mil por show. Com 59 quilos e 102 centímetros de quadris - dimensão pouco menor que um orelhão telefônico - entrou na lista das dez mais deselegantes e das louras burras.
O bronzeado e a cor do cabelo são artificiais, mas o bumbum é ‘‘natural de fábrica’’. Foi com este extravagante atributo que a brasileirinha do subúrbio, ex-fiel da Igreja Evangélica, tornou-se um verdadeiro fenômeno erótico até mesmo em países de tradição puritana, onde um conselho de telespectadores rege a programação da TV e seios e traseiros aparecem com as devidas tarjas pretas. O tablóide sensacionalista ‘‘The Sun’’, o mesmo que mostrou um falso vídeo sobre a princesa Diana namorando o amante, comprou, antes do Carnaval deste ano, uma série de fotos do novo must brasileiro.
Para Carla, que figura na lista das dez mais deselegantes pela revista Domingo, do ‘‘Jornal do Brasil’’, e exibe, quando fala, pouca afinidade com a cultura, o que importa é a conta bancária: a rotina que se repete de 20 a 25 vezes por mês traz, por show, um faturamento nada modesto de R$ 50 mil ao grupo. Carla dança diariamente duas horas durante os shows do É o Tchan (ex-Gera Samba), adora lasanha e Coca-Cola e não faz ginástica. ‘‘Tive sorte de ter esse bumbum, mas os exercícios do show ajudam’’ - revela o furacão louro ao reconhecer que foi graças ao anatômico tchan que ganhou dinheiro.
Quando é preciso rebolar Mas uma semana sem shows pode ser o suficiente para tirar o sono de Carla. ‘‘Minha ginástica é no palco. Como de tudo mesmo e não sei o que pode acontecer. Felizmente, temos shows todos os dias’’ - conta. Com tanta preocupação, Carla já vai botar no seguro sua abundância. ‘‘O fotógrafo do Leandro e Leonardo, o Chico Audi, está vendo uma empresa nos Estados Unidos que faz seguro até de cavalo. Mas sei que por menos de R$ 10 milhões não seguro meu bumbum’’ - diz, depois de confessar o medo da celulite e da força da gravidade. ‘‘Penso no presente e sei que tenho de me cuidar. Minha mãe faz lista do que posso comer.’’
Depois de cinco meses separada do policial civil e cantor Ailton Dario, Carla acabou contratando o ex-namorado como segurança pessoal. A loura tchan se diz ‘‘solteiríssima’’, mas foi flagrada de mãos dadas com o bicheiro carioca Waldemir Paes Garcia, o ‘‘Maninho’’, quando chegava a um ensaio do Salgueiro. ‘‘O quê? Eu conheci ele ontem... Na verdade eu falei muito rápido com o Maninho no primeiro show do Salgueiro. Uma vez, ele foi nos buscar na casa da estilista da minha griffe em Salvador e nem acreditei que ele tinha uma BMW branca, que adoro’’ - conta.
Resultado: um dos sonhos de Carla é comprar justamente em carro igual ao do Maninho. ‘‘Hoje tenho um Vectra’’ - diz, com um olhar modesto. Boatos sobre supostos casos amorosos são motivo de mágoa para a musa baiana. ‘‘Fiquei triste com essa história do Leandro (da dupla sertaneja Leandro e Leonardo), que é meu amigo. Ele é lindo, maravilhoso, mas não tenho nada com ele e vivem dizendo que estamos namorando’’ - afirma.
De fato, a imprensa provoca arrepios em Carla. Segundo ela, o que publicam sai totalmente diferente do que realmente fala durante a entrevista. Exemplos de tamanha irritação foram absurdos que a moça teria dito no programa ‘‘Jô Soares - Onze e Meia’’ que, de acordo com ela, jamais existiram. A bela loura virou uma fera e tratou logo de entrar na Justiça contra o jornal ‘‘A Tarde’’, de Salvador, que publicou as supostas declarações. ‘‘Não devo nada a eles, estou fazendo sucesso naturalmente’’ - diz chateada.
Leitora da Bíblia Tanto sucesso já rendeu convites da gravadora Polygram para carreira solo e até proposta de fazer um filme com o Ricky Martin - o cantor da música de abertura da novela da Rede Globo, ‘‘Salsa e Merengue’’. ‘‘Carreira solo agora fica difícil, porque eu tenho que praticar, fazer aula de canto e curso de atriz’’ - admite Carla, que desde os 14 anos requebra nos trios elétricos. Depois de tanto molejo, a dançarina aderiu de vez ao micro-shortinho no lugar da costumeira saia abaixo dos joelhos da Igreja Universal. ‘‘Frequentava a igreja com meus pais, mas a gente acabou saindo por causa do dízimo, da obrigação do dinheiro. Mas, hoje gosto de ler a Bíblia’’ - diz.
Caminho contrário seguiu a cantora e dançarina Gretchen que, com seu traseiro avantajado, arrancava suspiros da platéia masculina. Depois do sucesso do estilo pornô-brega Gretchen casou-se com um riquíssimo fazendeiro pernambucano mas a cantora continuou, mesmo que moderadamente, esbanjando sensualidade - em vez das minissaias, as calças boca-de-sino - em uma gravadora evangélica da TV Record. E foi justamente Gretchen a inspiração da Carla Perez.
‘‘Eu botava o disco na vitrola e imitava o rebolado dela’’ - lembra a discípula, que nem imaginava tornar-se mais famosa que sua precursora. Entre o samba e a dança do tchan, Carla diz ter facilidade de requebrar em qualquer ritmo. ‘‘A dança da bundinha foi criada em pleno palco. O tchan também é samba. Fui a primeira a botar o bumbum para trás e tremer em Salvador’’ - orgulha-se, que mesmo com a mudança de nome do grupo - de Gera Samba para É o Tchan -, continua a todo vapor nas paradas de sucesso. A banda trocou de nome depois que o irmão do vocalista Washington formou outra banda homônima. ‘‘Se correr tudo bem, em maio, o grupo deve tocar no festival de Montreux e segue para uma turnê na Europa e no Japão’’- antecipa Carla.
Loura nada burra A baiana não esconde a admiração que tem pelo próprio corpo. ‘‘Me acho muito sexy e ser símbolo sexual enche o ego de qualquer mulher’’ - conclui. Já para o colunista Tutty Vasques, há esculturas mais apreciáveis. ‘‘Não via a Globeleza (Valéria Valenssa) como uma mulher. Só depois da Carla Perez, comecei a achar a vinheta global escultural’’- opina.
Mesmo com curvas pra lá de sinuosas, o ideal da dançarina era mesmo ser advogada - sonho do pai - e diz que se tivesse tempo voltaria a estudar. ‘‘Esse papo de que as louras são burras é só para o Gabriel O Pensador’’ - irrita-se. ‘‘Eu fazia reflexo, mas por sugestão da produtora, comecei a passar tinta mesmo’’.
De burra realmente Carla não tem nada. O dinheiro arrecadado com publicidade e com fotos em revistas masculinas deu para comprar três lojas em Salvador (uma delas no badalado Shopping Iguatemi, na Bahia). Para 1997, a estratégia comercial são os brinquedos do grupo e a boneca Carla Perez. ‘‘Toda menina quer usar o short e a botinha da Carla Perez’’ - diz a aprendiz de empresária. Feito semelhante conseguiu a apresentadora Xuxa quando precisou apagar a imagem da modelo erótica para afirmar-se como a ‘‘Rainha dos Baixinhos’’.
‘‘Quando pequena tinha o sonho de ser paquita ou atriz. Xuxa é minha ídola e nem precisa dizer que gostaria de fazer a mesma coisa que ela: trabalhar com crianças’’ - confessa. Carla apresenta todos os dotes físicos da ditadura loura que tomou conta dos programas infantis. ‘‘O meu público é infantil. Impressionante como as crianças gostam do meu trabalho. Adoro dançar para elas’’.
A criança e o sexo A mesma Carla que tem planos para trabalhar com crianças, ao posar nua, não conseguiu bater o recorde de tiragem na Playboy de outra loura famosa, Adriane Galisteu, mas conseguiu passar perto - 900 mil exemplares contra 1 milhão de Galisteu - e popularizar a venda da revista. De acordo com o escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré, a mídia vem associando o imaginário infantil às suas frequentes fantasias sexuais.
‘‘A performance do Tchan, em que moças e rapazes simulam os jogos preliminares de uma empalação, possui notável êxito mercadológico junto ao público infanto-adulto’’. E conclui: ‘‘Especialmente na televisão, o adulto e o infantil estão nivelados no plano discursivo, só que numa atmosfera emocional plenamente sexualizada’’. Sodré ainda afirma que há uma relação de violência nessa homogeneização de públicos tão distintos. ‘‘Há consequências psicossociais. O país mais trabalhado por mídia de espetáculo no mundo (os Estados Unidos) é também o campeão dos índices de violência adulta contra crianças’’ - explica.
Dote hereditário A anatomia que arranca elogios e deslumbra os europeus é, na verdade, uma herança. Carla conta que em casa, todos - os pais, Carlos Soares e Ivone Perez, e os quatro irmãos - foram dotados com o mesmo atributo que lhe deu fama. ‘‘De costas, sempre me confundem com meu irmão de 17 anos’’ - conta rindo. ‘‘Minha família toda é fisicamente superdotada’’.
Carla é a filha mais velha de um artesão com uma camelô e foi marcada por uma infância humilde. Mesmo com o sonho de estudar direito, a baiana completou até o 2º ano do 2º grau numa escola pública de Salvador, onde diz ter sido ótima aluna ‘‘em Matemática e Português’’. Mas foi o molejo nato que rendeu bons resultados para Carla. Em 1995, o grupo É o Tchan vendeu 900 mil cópias. Já no ano passado, o disco ‘‘Na Cabeça e na Cintura’’ vendeu, em pouco mais de sessenta dias nas lojas, 2 milhões de cópias.
No exterior, preconceito Para o psicanalista e professor de pós-graduação do Instituto Brasileiro de Medicina, Daniel Kupermann, o grupo É o Tchan pode alcançar fama internacional. ‘‘O sucesso lá fora talvez não se deva especialmente à sexualidade da dançarina, mas pelo exotismo da dança, o que demonstra preconceito’’ - conclui o autor de ‘‘Transferências Cruzadas’’, da editora Revan. Pouco importa se o gosto do brasileiro se limita ao bumbum ou do americano aos seios. ‘‘A sexualidade não tem objeto pré-determinado, ou seja, há falta de regra geral para ela’’ - afirma Kupermann. E continua: ‘‘A sexualidade humana não aceita imposições ideológicas ou culturais, ela simplesmente se satisfaz das maneiras mais supreendentes’’.
Kupermann explica ainda que o sucesso pelo exotismo é altamente preconceituoso. ‘‘Se há admiração pelo lado exótico é porque aquilo está distante daquela cultura. Logo, se existe estranheza é porque não lhe pertence. Já o brasileiro admira o grupo pelo prazer da observação’’ - analisa.

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