O tamanho da fome
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Brilhante, doloroso, obscuro, agitado, disperso, habitado por gente solitária transitando por paisagens asfixiantes e pequenos espaços fechados, último refúgio de seus personagens. Assim é o cinema do sul-coreano Lee Chang-dong (na verdade, Chang-dong Lee), transparente como a vida. Melhor dizendo: transparente e a um só tempo misterioso e vago como a vida em si. Seus filmes são dramas intimistas retratados com extrema sensibilidade, histórias mínimas que vão encorpando até transbordar os limites do relato e nos fazer parte da história, tanto quanto parece ser universal. É tempo de agarrar a oportunidade e conhecer este autor muitíssimo interessante, diretor entre outros de "Poesia", já lançado no Brasil, e de "Uma Garota à Porta", lançamento em breve. Seu título mais recente, "Em Chamas", está em exibição em Londrina até sábado (1).

O argumento de "Buh-Ning" (o original coreano é muito parecido com "Burning", o título que recebeu em inglês) é baseado em conto de Haruki Murakami, que por sua vez se baseou em outro relato assinado por William Faulkner. São três personagens. O entregador Jongsu reencontra casualmente uma colega, Haemi. Ele aspira a ser escritor, ela quer trabalhar com arte e por ora vive de pequenos expedientes. Ele é um tipo tristonho de sonhador, embora determinado; ela é uma jovem sem maiores ambições ou conhecimentos.
O roteiro contempla com naturalidade e numerosas elipses a evolução desta relação ordinária. Até que Haemi anuncia uma viagem para a África e pede que na sua ausência Jongsu cuide de seu gato, que nunca é visto em cena. Na volta, ela pede que Jongsu a busque no aeroporto. Com ela chega Ben, jovem rico e sem ocupação definida que ela conheceu na África. Parecem namorados, o que incomoda Jongsu. A partir deste momento, o trio vai estabelecer uma relação ambígua, oscilando entre a admiração e a inveja, a amizade calma e o ciúme.
Lee Chang-dong vai então monitorar os dois rivais (?) a meia distância, evitando juízos de valor e se mantendo sempre em compasso de narração naturalista. A direção, no entanto, vai aos poucos introduzindo pequenos incidentes que ameaçam romper o equilíbrio de Jongsu, em primeiro lugar, e logo do trio: o gato que Jongu deve alimentar mas que ninguém vê, e o gato que mais tarde aparece no requintado apartamento de Ben. O pai agressivo que Jongsu mantém à distância, a confissão do segredo perverso de Ben - queimar estufas de propriedades rurais. Sutilmente aparecem ao espectador os detalhes daquelas três vidas. Misteriosamente, Haemi desaparece sem deixar qualquer traço. É providencial notar como as habitações dos três personagens revelam seu comportamento interior. O contraste entre um espaço e outro marca a ruptura dos sentimentos daqueles três. Cada um deles vai decidir quais limites marcará em relação aos demais.
Lee Chang-dong constrói também um minucioso registro dos gestos, das expressões dos três personagens. A direção de atores é tão precisa quanto o brilho das três interpretações - Yoo Ah-In, Steven Yeun, Jeon Jong-seo. Os três oferecem a riqueza de detalhes mínimos e essenciais. Detalhes, aliás, que vão determinar o curso da narrativa, rica em ilações, pródiga em dúvidas e ambiguidades. Como exercício existencialista, "Em Chamas" (o título do conto de Murakami é "Queimar Celeiros", no filme transformados em estufas na zona rural) nos fala da necessidade (e tentativa) de cada um se sentir vivo. Como sugere Haemi num dos diálogos, o que se coloca é a fome em uma segunda acepção. A fome menor, a da sobrevivência física, a da necessidade de alimento. E aquela em questão, a grande fome, a existencial, da busca do sentido, do desejo de preencher o cotidiano com um conteúdo autêntico.
Sem precipitações ou subenredos desnecessários, conciso mas sem deixar nada faltando, Lee Chang-dong monta sua estrutura narrativa com esmero, prestando tanta atenção ao desenvolvimento dos personagens como na interação entre eles, ao espaço, aos diálogos. Cada sequência vai alimentando a anterior, e deixando a seguinte para que o salto entre as cenas seja o mais imperceptível possível. Aqui, Lee Chang-dong surge ainda melhor que Murakami.
Como se trata também de um drama de suspense com crescente (e dosificada) tensão dramática, de uma trama desenvolvida com suavidade, o filme terá conclusão a um só tempo suave a abrupta, provocativa, instigante. A finalização pode levar a diferentes suposições. O que nos leva a crer que há muitas histórias acontecendo ao nosso redor. Não esquecendo que o protagonista é apaixonado pela ficção criativa.


