Ele foi crescendo e crescendo na mídia, acumulando troféus nas festas de premiação, virou queridinho dos bem-pensantes, deu um chega pra lá desconcertante no favoritismo inicial do bebê-ancião Benjamin Button e domingo à noite pode levar um punhado de estatuetas na festa do 81º Oscar, inclusive a mais cobiçada, a de melhor filme. Em lançamento na cidade a partir de hoje, ‘Quem Quer Ser um Milionário’ merece de fato toda esta movimentação favorável que se armou em torno dele ?
  A resposta é: em termos. Baseado em novela do escritor e diplomata indiano Vikas Swarup, o argumento parte de uma idéia de fato muito boa. Em Bombaim, ou Mumbai, como agora é oficialmente conhecida a maior cidade da India, o jovem Jamal Malik (Dev Patel), 18 anos, órfão, analfabeto, menino de recados em serviço de informações telefônicas, está prestes a ganhar 20 milhões de rúpias (algo como 700 mil dólares) em concurso televisivo de perguntas e respostas.
  Mas a policia não compreende como ele pode ser um vencedor. Para cada resposta, os policiais truculentos exigem uma explicação - e então é acionado o mecanismo dos flashback. Tudo o que Jamal sabe ou deduz ele aprendeu nas ruas ao lado do irmão (hoje um gangster impiedoso) e de Látika, seu amor de sempre (Freida Pinto), e sempre impossível. A mecânica se repete sem muita variação e revela, de maneira mais ou menos folhetinesca, a história-odisséia sempre esperançosa do personagem.
  O filme utiliza uma multiplicidade de recursos narrativos, alternando comédia, drama, relato iniciático, romance adolescente e história de gangsters. Danny Boyle, que nunca mais conseguiu voar tão alto quanto em ‘Trainspotting’, um dos mais fortes filmes-travessia do milênio, procura dotar ‘Slumdog Millionaire’ de um recheio além daquilo que é evidentemente previsível. De mãos dadas, o talento e a habilidade dele constroem o conceito de conto alegórico à base de uma estética de luxo, mostrando momentos urgentes de decisões/descobertas e saltos temporais com vinhetas que ilustram situações humorísticas e trágicas.
  Um dos problemas do filme é que Boyle trivializa a miséria e a transforma em espetáculo lançando mão de certo voyeurismo em formato de videoclipe. A feliz sequência final, coreografada em típico estilo bollywood, é incomodamente evasiva, embora de sabor popularesco e capaz de sensibilizar acadêmicos hollywoodianos.
  ‘Quem Quer Ser um Milionário’ poderia ganhar maior consistência, e sem perder seu apelo a todas as platéias, se investisse mais na sátira e nas críticas aos entraves do governo que castram o progresso econômico e social do indivíduo, com pouco ou nenhum respeito pela presunção de inocência e muita predisposição ao preconceito. Ou se lançasse um pouco mais de fel na convivência/conivência entre os veículos de comunicação de massa com o poder constituído. Em vez disto, a história busca aplainar a rispidez dos vínculos familiares e românticos às custas dos bons sentimentos, mas para ser bem sucedida nesta linha teria que contar com um elenco de personalidades fortes, porém o conjunto de interpretes não é dos mais habilitados para a tarefa e resulta unidimensional - apenas o jovem protagonista Dev Patel dá plena conta do recado.

mockup