O sul do Chile a bordo de um navio
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domingo, 06 de abril de 1997
Mônica Montoro Agência Estado 
ReproduçãoIgreja em Calbuco: estilo arquitetônico é típico do sul do paísO sul do Chile tem belezas tão díspares quanto excêntricas. Em alguns quilômetros de distância, são encontradas geleiras de 30 mil anos ou uma fonte de água quente subterrânea que brota a 80º C. Entre uma paisagem e outra da costa, há muitas ilhas cobertas de verde algumas com aldeias de pescadores que sobrevivem, intactas, no isolamento de suas montanhas. Assim é o panorama a partir de Puerto Montt e assim é o roteiro de viagem dos navios Skorpios, que saem aos sábados do Terminal de Chinquihue.
Deixando para trás as encostas de Puerto Montt, a viagem começa com a travessia do Canal de Tenglo, logo depois alcançando Calbuco, uma pequena e simpática cidade ribeirinha, com igreja amarela e casinhas coloridas. Antigo forte espanhol, fundado em 1602, Calbuco se transformou em um importante centro pesqueiro.
Aviso aos navegantes: a viagem é lenta e sossegada, fora os lugares onde o navio atraca e há passeios em terra. O resto do tempo é um quase dolce far niente. Se come, se bebe, se dorme... Não há piscinas ou fitness a bordo.
ReproduçãoIlha de Chiloé e seus palafitas: artesanato e pesca
Seguindo pelas pacíficas águas do Pacífico, chega-se ao Golfo de Ancud e ao Arquipélago de Chiloé. São 32 ilhas e muitas histórias. Uma lenda que vaga por essas águas é a do navio fantasma Caleuche. É nele que os que morreram no mar fazem suas festas, regadas a champanhe do além. Há também contos menos mórbidos, como o da Pincoya, uma sereia que vive se penteando.
Visão extraordinária Ao largo das lendas e das muitas histórias, o navio segue mar adentro. À noite, passaremos pelo Golfo do Corcovado. E para enfrentar a travessia, a mulher do capitão, dona Mimi, vai de mesa em mesa oferecer pílulas de Dormonid, para um sono tranquilo.
Despertamos sob o insólito som de Tico-tico no Fubá na aldeia de pescadores de Puerto Aguirre. No desembarque, um grupo de crianças aguardava os turistas e se oferecia para acompanhá-los em uma visita ao povoado. Com cabelo liso e pele escura, eles trazem no rosto os traços das tradições hispânica e indígena. As ruas de Puerto Aguirre são estreitas e as casas, simples. Uma pequena imagem de Nossa Senhora abençoa o vilarejo.
Do mirante da cidade é possível ver algumas ilhas e um singular cemitério, onde as tumbas são pequenas réplicas das casas onde os mortos viveram. Dizem que é para eles não sentirem muita saudade delas.
No dia seguinte, aportamos na Laguna de San Rafael, o ponto alto da viagem não só pela altura das geleiras, mas pelo extraordinário da visão. É um rio de gelo que avança para o mar com sua imensidão azul e branca. Esse glacial de 50 m de altura, 230 m de profundidade, 2.250 m de largura e 15 km de comprimento foi descoberto em meados do século 16 pelo navegador Juan Garcia Tao. Parece uma torre de catedral depois de uma nevada.
Versos de Neruda Na manhã seguinte, uma nova parada, desta vez no Mirante de Quitralco. Para chegar lá é preciso ter fôlego, mas o caminho compensa o esforço. Um bosque cheio de árvores e flores exóticas, além de pedras, é o corredor natural que leva ao mirante, de onde se aprecia uma paisagem salpicada de ilhas, montanhas cobertas de gelo e um mar de azul forte.
Mas são as águas quentes do Vulcão Hudson, que brotam a 80º C, o grande sucesso de Quitralco. Cinco piscinas ao ar livre e três cobertas, todas com temperatura média de 37º C, e mais as saunas se encarregam de garantir o relax dos viajantes.
No outro dia, depois de passar ao largo da Cordilheira dos Andes, da Ilha de Melinka e do Golfo do Corcovado, chega-se a Queilen, na Ilha de Chiloé. Beirando a costa, dá para ver muitas salmoneras, onde produzem o salmão, e algumas fazendas que cultivam batatas e criam ovelhas entre álamos.
Em Castro, a capital de Chiloé, a maioria das construções é de madeira e tem, no máximo, cento e poucos anos. A cidade é conhecida por sua feira de artesanato, que vende de malhas de lã a jóias de prata. Mas nada se compara à pesca. Não é por acaso que se vê no porto, pintado em uma das embarcações repletas de peixe, os versos de Neruda: Oh mar... Abre tu caja verde, y dejanos a todos en las manos tu regallo de plata. El pez de cada dia.
A viagem de Mônica Montoro foi oferecida pela Lan Chile e pelo Skorpios


