Exalando negritude, suingue e raça, o canto pungente de Ellen Oléria merecia ser ouvido pela grande massa. E isso aconteceu graças a um programa de calouros. Desde a primeira apresentação da cantora na primeira edição do "The Voice Brasil", no ano passado, ninguém teve dúvidas quanto ao talento da moça. Trazendo todo a ginga e a pressão de sua black music, a "caloura" mostrou que tem voz e originalidade de sobra para conquistar seu lugar ao sol entre os grandes nomes da MPB.
Além de levar para casa o prêmio de R$ 500 mil por ter conquistado o 1º lugar no programa pelo voto do público, Ellen ganhou o direito de gravar um CD pela gravadora Universal Music. No disco recém-lançado, o segundo da carreira, estão canções já cantadas no The Voice, como "Anunciação" (Alceu Valença), "Maria, Maria" (Milton Nascimento e Fernando Brant) e "Zumbi" (Jorge Benjor), além de composições próprias. O álbum conta com a participação especial de Carlinhos Brown na regravação de "Aqui é o país do futebol", sucesso de Milton Nascimento que também ganhou versões de Elis Regina e Wilson Simonal.
Aos 30 anos, a cantora nascida em Brasília concedeu entrevista à FOLHA por e-mail e mostra que tem um discurso tão afinado quanto sua voz, que usa para defender suas convicções pessoais, raciais e políticas.

Quem é a pessoa e a cantora Ellen Oléria?
Sou eu mesma (risos). Escorpiana. Amante das cores e sabores. Ligada a 110 e 220w num bom som. Apreciadora do cinema e de boas gargalhadas. Uma mina cheia de fé na vida.

Quando e como você se descobriu cantora?
Não sei. Canto desde sempre. Profissionalmente? Aos dezessete anos optei por fazer da arte a minha profissão.

Você vem de uma família musical?
Sim. E acredito que não haja alguém nesse mundão que não venha de uma família musical. É um jeito de rir, de dançar, de contar uma história, o suingue ao mexer a panela no fogo, o gosto por uma era ou estação de rádio em particular. Tudo isso a gente compartilha ou rejeita ou define como nosso e nos chega também como presente ou herança familiar. E tudo isso pode virar música. Depende só do desejo.

Quais influências sua música carrega?
Dos ruídos dos carros e motos ou o canto dos passarinhos que ouço da janela de casa, às conversas das mulheres entrecortadas e justapostas. Das memórias mais antigas do meu pai sanfoneiro e do radinho de minha mãe com um locutor lendo cartas de ouvintes com uma música triste ao fundo. Do cimento da cidade grafitado ou da água doce do córrego. Da voz aguda de Zezé Di Camargo à poesia de Milton Nascimento. Das divas do samba às divas do soul estadunidense. Do hip hop ao carimbó, da musa do pop esquimó Björk ao gospel de Kirk Franklin... tudo isso cabe na música que fazemos.

Como você define o seu som?
Música brasileira. O que nos permite inclusive diluir qualquer restrição fronteiriça, já que qualquer pessoa do planeta cabe dentro da diversidade brazuca.

Você compõe há muito tempo? O que a inspira a compor?
Componho desde criança. A vida, a morte, o cotidiano, a revolta, a flora e a fauna, o mar, a cor do cabelo dela, o amor, a paixão... tudo isso inspira.

Gosta mais de estúdio ou dos palcos?
Cada espaço de atuação tem sua especificidade e relevância. Fazer um registro em estúdio é muito interessante por seu poder de transcender a própria vida, quem grava pode atravessar gerações! Mas preciso confessar que o que mais me atrai é o caráter efêmero do ao vivo.

Como está sendo esse reinício de carreira depois da exposição na TV? Mudou muita coisa?
Como diria Lulu Santos "tudo muda o tempo todo no mundo". Vivemos reiniciando ciclos e esse ciclo tem sido muito produtivo pra mim. Muita expressão pra nossas pesquisas, digo "nossas" porque já há mais de sete anos sigo ao lado de grandes músicos na estrada. Hoje me mantenho encontrando e vencendo novos desafios, como é a vida de qualquer profissional na ativa. Coração cheio de alegria e muita coisa boa pra compartilhar.

Tem previsão de trazer o show para Londrina ou outra cidade do Paraná?
No Paraná, apesar de não ter nenhuma data fechada, estamos na expectativa de em breve apresentar esse momento musical ao vivo.

Você teve sua condição sexual revelada durante o programa ao ter sua namorada identificada na plateia. Sofreu algum tipo de preconceito ou imposição em relação a isso?
Imposição? Apenas da paixão. Tive minha condição sexual revelada quando comecei o namoro. Escondê-la nunca foi uma prática ou desejo meu. A passagem pelo programa apenas distribuiu a informação pro grande público. Sobre preconceito devo dizer que não costumo dar ibope pros reacionários.

Que meta você persegue em sua carreira? Se espelha em alguém?
Já toquei pra três pessoas num show. e já toquei pra três milhões. Já viajei treze horas de van pelas "BRs" pra fazer um show num interior do Brasil e já viajei treze horas de avião pra tocar numa grande capital da Europa. A vida nos oferece surpresas a todo instante. O poder da antena de TV me levou tão longe que atravessei em segundos o atlântico negro, sem correntes e navios. Com minha voz cantando ancestralidade, força e fé, quero a cada dia uma apresentação bela. Meu pedido à vida é que eu possa emocionar alguém como me emociono com a música.

O que a gente pode esperar dos seus próximos trabalhos?
Inteireza.

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