O Sonic Youth poucos conhecem
Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
Paralelamente aos discos que desde 1990 o Sonic Youth vem lançando pela major norte-americana Geffen (o último deles, A Thousand Leaves, saiu no ano passado), o grupo formado por Thurston Moore, Lee Ranaldo, Kim Gordon e Steve Shelley tem desenvolvido projetos mais ambiciosos (porém de pouco apelo comercial), editados por seu próprio selo, o Sonic Youth Records. Tal é o caso da série Musical Perspectives, cujos três primeiros volumes (EPs) também conhecidos como SYR 1, SYR 2 e SYR 3 saíram em 97. Agora, chega às lojas alternativas dos EUA e da Europa o volume 4 desse projeto: Goodbye 20th Century.
Trata-se de um CD duplo, onde a banda contando novamente com a colaboração do multiinstrumentista Jim ORourke, mais a de Wharton Tiers, entre outros (incluindo Coco, a filhinha de seis anos de Kim e Trurston) interpreta obras de compositores de vanguarda como John Cage, Steve Reich, Pauline Oliveros e Yoko Ono (para quem não sabe, em tempos idos Yoko integrava a avant garde nova-iorquina). Desnecessário dizer que, ao contrário dos discos do Sonic Youth lançados pela Geffen, este não tem chance de ser editado no Brasil e, portanto, o jeito é encarar a cotação do dólar e recorrer à importação.
O comentário acima também se aplica aos projetos solo dos integrantes do SY, em especial os de Lee Ranaldo (dentre os quais recomendo The Gift of Tongues, realizado em parceria com William Hooker e Zeena Parkins) e os de Thurston Moore (que nos últimos anos trabalhou com a companhia de dança de Merce Cunningham e com nomes lendários da free music como Cecil Taylor e Milford Graves). Vale lembrar que essas incursões vanguardistas não são coisa recente nas carreiras de Thurston e Lee: já em 1981, os dois fizeram parte do ensemble que gravou a Symphony nº 1 (Tonal Plexus), do experimentalista Glenn Branca.
Fotos e pôsteres de Branca (cujas radicais experiências com orquestras de guitarras teriam eco no trabalho futuro do SY), dos grupo Mars e DNA (ligados ao movimento de vanguarda No Wave, do final dos anos 70), do guitarrista japonês Keiji Haino e das bandas Einsturzende Neubauten e Swans, entre outros artistas e grupos igualmente criativos, podem ser vistos nas paredes da Sonic Youth Records, em Manhattan, e constituem o panteão de heróis e/ou influências confessas dos proprietários da gravadora.
Por outro lado, se mesmo uma banda com quase 20 anos de estrada e conhecida mundialmente como o Sonic Youth não consegue ter os seus discos mais inventivos lançados no Brasil, o que dizer de seus ídolos? O Neubauten esteve recentemente em nosso País, praticamente sem nenhuma divulgação prévia (até onde sei, fui o primeiro jornalista brasileiro a noticiar a vinda do grupo, já no mês de maio e um dos poucos a fazê-lo), realizou show no Sesc Belenzinho, em São Paulo, seu líder (Blixa Bargeld) deu uma rápida entrevista ao Fábio Massari quando ele retornou à MTV, e pouco mais do que isso aconteceu. Quanto a editar por aqui os discos da banda (clássicos com Halben Mensch, Funf auf der nach oben offenen Richterskala, Haus der Luge e Tabula Rasa de 85, 87, 89 e 93, respectivamente), nem o mais leve sinal.
De quem é a culpa? Por certo não é do público que compra CDs do Rick Martin e dos Backstreet Boys. Mas, sem dúvida, o é de todos aqueles que impedem por interesse, por omissão ou obtusidade o acesso a (e a formação de) uma cultura musical que escape à mediocridade hegemônica (cuja exploração é altamente lucrativa), à homogeneização do gosto e à globalização da banalidade. Assim quando menos para desencargo de consciência e na esperança de que alguns leitores utilizem essas informações remeto mais uma vez ao site de uma das melhores revistas de música alternativa do mundo, a britânica The Wire.
Digite www.dfuse.com/the-wire, clique em links e depois em artists/groups. Lá você encontrará uma lista que dá acesso às homepages do Sonic Youth, de Lee Ranaldo (Lee is Free), Glenn Branca, Jonh Cage (um dos compositores da vanguarda erudita mais importantes deste século), Steve Reich (um dos pioneiros do minimalismo), Pauline Oliveros (compositora/instrumentista que uniu o acordeão à música eletrônica experimental), Yoko Ono, Swans e Keiji Haino portais de acesso a um universo de fascinantes aventuras musicais.





