Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Não entre nesta trip esperando um filme historicamente fiel a tudo o que se passou há quase 40 anos no panorama do rock inglês, no imediato pós-Beatles. Uma vez isto assimilado, relaxe e aproveite o banquete elétrico e visual que é ‘‘Velvet Goldmine’’ (veja a programação de cinema na página 5). Na ótica do diretor Todd Haynes, a realidade se perde um tanto no labirinto das montagens musicais aditivadas com o pesado repertório lisérgico da época. O argumento, sobre um repórter que é convocado para encobrir a ‘‘verdade’’ por trás do desaparecimento do ídolo roqueiro Brian Slade, é quase insignificante no concerto geral. Aqui, a regra da contravenção é adulterada. Vale de fato o que é visto, e não o que está escrito.
Em assumida homenagem à construção narrativa e investigativa que imortalizou Orson Welles em ‘‘Cidadão Kane’’, Haynes constrói uma elegante, niilista fantasia sobre dois míticos - e fictícios, em grande parte - anti-heróis. O flamboyant Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers), no filme corpo e alma de David Bowie, uma espécie de manequim intergalático. Sua contrapartida americana, e óbvio decalque do pop star Iggy Pop, é Curt Wild (Ewan McGregor), espécie de protopunk visionário. Na superfície, os dois personagens - um, apenas pose, o outro um anarquista - não poderiam ser mais diferentes. O que os une, numa palavra, é sexo. A relação entre ambos, musical e na cama, marca o momento de transformação social importante no lado gay de Carnaby Street, quando o amor livre dos anos 60 dá lugar a alguma coisa mais selvagem e de certa forma mais próxima da realidade. A conturbada união de Curt e Brian é evidente metáfora do que foi de fato o rock glamuroso do período: algo assim como uma transcendente e libertária revoada de espíritos masculinos e femininos. A caçada nos créditos de abertura do filme, quando fãs perseguem seus ídolos nas ruas de Londres ao som do hit de Brian Eno, dá bem a medida do êxtase que ocorreu naquele início dos 70.Experiência visual brilhante, ‘‘Velvet Goldmine’’ , que entra hoje em cartaz em Curitiba, retorna à mitologia do rock nos anos 70
DivulgaçãoCena de ‘‘Velvet Goldmine’’: delírio do rock nos anos 70 é mostrado em filme visualmente impecável

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