O som que encanta serpentes
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sexta-feira, 11 de setembro de 1998
Érika Pelegrino 
O concerto da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina deste sábado traz como principal atração o primeiro oboísta da Filarmônica de Nuremberg, o brasileiro Paulo Rogério Arantes. No programa estão peças como A Criatura Prometheus (Beethoven), Concerto para Oboé e Orquestra (Haydn), Sinfonia da Ópera Posca (Carlos Gomes) e Suíte Carmen Nº 1 (Bizet). A entrada é franca.
Paulo Rogério Arantes mora há 20 anos na Alemanha e esta é a segunda vez que vem a Londrina. Em julho ele esteve na cidade participando do Festival de Música. Formado pela Escola Superior de Música de Hannover, também na Alemanha, o oboísta brasileiro que se destaca na Europa nasceu em Americana, interior de São Paulo.
Sua trajetória como músico começou aos 12 anos tocando flauta doce no Ginásio Experimental em São Paulo. O contato com o oboé aconteceu por acaso. Quando a família mudou-se para Piracicaba, a Escola de Música da cidade estava oferecendo bolsas para instrumentos raros.
Paulo Arantes candidatou-se a uma vaga para estudar oboé e não parou mais. A mudança para a Europa aconteceu através de um festival de música de Curitiba em 1975, em um curso de férias. Na ocasião o músico despertou a atenção de Ingo Goritzki, professor da Escola Superior de Música em Hannover. Ele me incentivou a tentar uma bolsa no Departamento Acadêmico de Intercâmbio Alemão, conta Paulo Arantes. Depois algumas pessoas dizem que os festivais de música não são importantes. Foi um festival destes que mudou minha vida, afirma.
Estudou três anos com Ingo Goritzki e em 1980 entrou para a Orquestra Sinfônica de Nuremberg. Algum tempo depois o músico brasileiro foi para Paris estudar com Allan Denis e Maurice Bourgue. Em 1986 entrou para a Filarmônica de Gelsenkirchen e em 1989 para a Filarmônica de Nuremberg, onde permanece até hoje como primeiro oboísta solo.
Instrumento de madeira com palheta dupla e som nasal, o oboé já era tocado no antigo Egito e Índia pelos encantadores de serpentes. Seu período de ouro, de acordo com Paulo Arantes, é o Barroco, quando compositores como Handel, Bach e Joseph Garnier começaram a escrever os primeiros métodos, sonatas e cantatas para oboé.
Para aqueles que não são muito íntimos de orquestras sinfônicas, o oboé, segundo Paulo Arantes é o que dá o lá em uma orquestra. O oboé é um instrumento muito importante na música contemporânea. Com ele é possível fazer efeitos especiais, exemplifica. A melhor forma de conhecer o som deste instrumento, recomenda o oboísta brasileiro, é através da Sinfonia em Dó Maior, nº 7 ou nº 9 de Franz Schubert. É um som bucólico, melancólico, descreve.
Segundo Paulo Arantes, o oboé só é considerado um instrumento raro no Brasil. Na Alemanha existem muitos oboístas, diz. Isto devido a dificuldade de se adquirir um instrumento bom - as fábricas de oboé estão na Europa - e a falta de professores para instrumentos raros. Mas hoje já está crescendo o número de músicos brasileiros que optam pelo oboé, afirma.
Outra questão levantada pelo oboísta brasileiro é a desvalorização da música clássica no Brasil, de forma geral, e não apenas no que se refere a instrumentos raros. Ele não é o único músico brasileiro que saiu do Brasil para perseguir o sonho de viver da música clássica.
Falta de tradição, falta de público, falta de cultura? Quando se conversa com alguém que se dedica à música erudita a desvalorização no Brasil está sempre presente.
Depois de 20 anos morando na Alemanha e com uma carreira consolidada no exterior, o oboísta brasileiro afirma que se fosse valorizado, o brasileiro não iria tocar no exterior. A desvalorização passa, sem dúvida, pela sobrevivência do músico. Enquanto no Brasil o salário de um solista de orquestra é, em média, R$ 1 mil, na Alemanha chega a R$ 4 mil.
Sem dúvida é preciso dar mais apoio às orquestras sinfônicas, diz. Não se investe em orquestras porque não é algo que dê um retorno imediato. Outra questão levantada pelo oboísta é quanto à burocracia. Segundo ele, exige-se muito o diploma e olha-se pouco para a qualidade do músico como artista.
Muitos acreditam que a falta de investimento está relacionada com a falta de público. Paulo Arantes garante que o Brasil é um país aberto a todo tipo de música. Proporcionalmente, o Brasil tem a mesma quantidade de público que a Europa, afirma. Falta divulgação. Na minha época de estudante nós tocávamos Bach na praça e lotava de pessoas que não iam embora enquanto não terminávamos.
Apesar das dificuldades o oboísta brasileiro é otimista. Ele acredita que a situação está melhorando. Hoje tem muito mais orquestras no Brasil do que na década de 70 quando eu fui embora para a Alemanha.
Concerto da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina, hoje às 20h30, no Teatro Marista. Entrada franca.


