O último show dos Beatles não foi num palco, foi no alto do telhado da gravadora Apple, em 1969. No meio de uma crise interna, a banda resolveu fazer uma despedida à altura de sua fama. Num palco não convencional fez um show gratuito para quem passava na rua. O ar despojado e os cabelos ao vento davam sinais da liberdade que ainda sobrava na alma do quarteto de músicos, embora já tivessem sucumbido ao peso da fama e dos problemas que sempre envolvem os negócios. Mas as disputas internas foram momentaneamente apagadas naquele show para que a banda tivesse um fim digno do que representava.

Imagem ilustrativa da imagem O som que caiu do telhado
| Foto: Marco Jacobsen



O último show improvisado aconteceu em 30 de janeiro de 1969. Faz, portanto, 50 anos que os Beatles pararam Londres e - por que não? - o planeta. Há controvérsias sobre quem propôs o show no telhado, algumas fontes dizem que foi ato de tentativa de conciliação de Ringo Star, outros dizem que foi ideia de John Lennon, já o engenheiro de som Glyn Johnson afirma que a iniciativa foi dele.

Na infância, lembro-me que soube do show inusitado enquanto ouvia a BBC de Londres, em transmissão ao Brasil, numa época em que o rádio ainda tinha lugar na sala de visitas, embora a TV já estivesse lá. Sempre tive a impressão que desembarquei tardiamente na história dos Beatles, quando me dei conta da maravilha que era a banda, ela estava quase se dissolvendo, o fim viria em 1971. O show no telhado da gravadora Apple foi durante as gravações do último álbum da banda, Let It Be, paradoxalmente um dos primeiros que ganhei. Meus irmãos mais velhos tiveram a sorte de desembarcar no rock and roll muito antes. Minha irmã era fã de Elvis e meu irmão usava topetes simulando uma rebeldia que, na verdade, nunca teve. Meu irmão sempre foi um cara sério, eu a ovelha negra da família.

Assisti ao filme Let It Be num cinema do interior do Paraná, com o coração aos pulos, as músicas "Get Back" e "Don't Let Me Down" mobilizavam meu desejo de liberdade. "I Me Mine", nem tão conhecida, também provocava meu músculo cardíaco. Mas ainda havia "One After 909" um rock ligeiro da banda que também era dada a experimentalismos, usados em repetições de palavras e sons ambientais no famoso Álbum Branco (White Álbum) que eu também ouvi, quase até furar, na versão em vinil que ainda tenho.

Em 1969 também aconteceu Woodstock, que me fez sair do cinema querendo ser hippie. Tivesse mais idade, acho que ninguém seguraria meus planos de ter uma vida alternativa. Mas ainda não tinha maioridade quando Raul Seixas deu vivas "à sociedade alternativa", o que me deu a sensação eterna de ter perdido o bonde da minha real vocação.

Cresci ouvindo rock e a relação mais próxima que consegui ter com a rebeldia foi ser jornalista, embora meu primeiro desejo tenha sido estudar psiquiatria. Os planos de assumir a rebelião ficaram mais na instância das fantasias do que da realidade. Mas vivi anos embalados por palavras de ordem, notícias de rebeliões estudantis, rock and roll e MPB de qualidade.

Hoje, quando quero relaxar, ainda assisto a shows de rock na Smart TV, memórias de anos ruidosos em que a música era o veículo de voos da liberdade total que nunca atingi. Acredito mesmo que nem meus ídolos atingiram o Nirvana da mente e corpo livres. O fim dos Beatles foi um desfecho frustrante de declarações maldosas, fofocas e ações na justiça. O poder, em qualquer nível, sempre é o veículo da discórdia.

Fica a memória de um inverno em Londres, uma banda num show inusitado e nossos sonhos despencando do telhado para um mundo que se tornou mais cético e mais triste.

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