O som e o hábito
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de setembro de 2000
Fábio Furlanete De Londrina Especial para a Folha2 
É muito comum nos dias de hoje nos relacionarmos com a música a partir das funções que ela costuma desempenhar em nossas vidas. Vinhetas, jingles e músicas para chamadas comerciais de todos os tipos, música ambiente, para festa, música para relaxamento e/ou excitamento, musicoterapia, e até mesmo música para fazer plantas crescerem.
Mas e aquela música que é tocada em salas de concerto? Qual é a função daquela música à qual nos sentamos placidamente para ouvir nos recitais de domingo? Essa é uma questão muito mais ampla e complicada do que pode parecer num primeiro momento. Remete à própria função da arte em geral e frustra qualquer expectativa que poderíamos ter de esgotá-la aqui. Porém, podemos especular um pouco e fazer alguns apontamentos.
A arte, e consequentemente a música, sempre funcionou como uma espécie de espelho de duplo sentido. Se por um lado reflete os conceitos e a visão de mundo de uma determinada época, por outro serve como instrumentos para desencadear mudanças nesse mundo através da transformação da própria cultura. Ao refletir os elementos de uma determinada cultura, a arte normalmente o faz de uma maneira particular e inusitada, representando esses elementos de formas às quais não estamos acostumados, quebrando nossos hábitos perceptuais e desestabilizando o modo como habitualmente vemos o mundo. A partir daí sentimos a necessidade de reorganizar nossas idéias e, quando o fazemos, criamos novas soluções e transformamos o universo à nossa volta.
Em cada época a música encontrou suas formas de desempenhar esse papel, seja através da distribuição do som no espaço das catedrais, como faziam os compositores do final da Renascença, ou dos intrincados jogos formais que encontramos em Beethovem e Brahms. Já nesse final de século XX, a chamada música erudita encontrou várias formas de questionar nossos hábitos perceptuais através da escuta. Isso se deu pela crescente complexidade da música, que principia no início do Romantismo e que se torna uma característica marcante do século XX. Ou então pelo resgate da improvisação, perdida pela música erudita desde o final do Barroco. Ou ainda pela emergência da sonoridade e do timbre, rompendo as barreiras tradicionais entre som nusical e não-musical, dirigindo a escuta para os sons ao nosso redor e permitindo que se elabore linguagens musicais com todo tipo de som.
Nesse domingo, teremos a possibilidade de novamente nos sentarmos placidamente em uma sala de concerto e verificar essas características da música atual. Teremos uma apresentação do grupo de câmara Novas Tendências, que reúne em seu repertório obras de compositores que nos oferecem, de diversas formas, a possibilidade de abrirmos nossos ouvidos e nos questionarmos a respeito de como temos ouvido nosso mundo. Poderemos nesse domingo voltar nossa atenção para essa função da música, ao mesmo tempo tão importante e tão esquecida em nosso tempo.
Fábio Furlanete é compositor, maestro e professor do curso de Música da Universidade Estadual de Londrina


