A um custo estimado de 140 milhões de dólares, ‘‘Mar em Fúria’’ está a partir de hoje em 270 salas brasileiras (veja a programação de cinema na página 5). É mais um mega-lançamento irradiado a partir do verão americano, destinado a monopolizar generosos espaços internacionais de exibição e a entupir a mídia com penduricalhos e adereços. Cinema catástrofe com condimentos de misticismo de supermercado, o filme é um desastre de épicas proporções. Quase em ambos os sentidos.
Adaptado do best-seller ‘‘The Perfet Storm’’, de Sebastian Junger, consagrado à ‘‘tempestade do século’’ ocorrida na véspera do Dia de Todos os Santos de 1991, na região de Gloucester, pequena cidade costeira do Massachusetts, o filme é a dramatização do que ocorreu com o barco pesqueiro ‘‘Andrea Gail’’. O ponto de partida é a dificuldade cada vez maior de encontrar cardumes próximos à costa, o que obriga os pescadores a se afastar mais e mais mar adentro. Com todos os riscos agregados, obviamente.
‘‘Mar em Fúria’’ abre com uma rajada de clichês premonitórios. O capitão Billy Tyne (George Clooney) está vivendo um mau momento profissional. Sua última pesca foi um recorde negativo. Por isso, mesmo contra a corrente e contra a maré, em perigoso fim de temporada, ele decide tentar ainda uma última vez. O dinheiro é tão pouco quanto são grandes os riscos e, como deixa claro uma longa e tagarela sequência num bar de pescadores, o ideal romantizado do mar é bem menos poderoso e atraente do que as necessidades primárias do dia-a-dia. Assim, Billy se lança à aventura acompanhado por seis homens firmemente engajados na idéia de que são marinheiros formidáveis, amantes exemplares, pais excepcionais. Juntos, conjugam uma força de caráter que dá ainda maior dimensão à tragédia que se aproxima.
A mesma cena do bar é também cheia de presságios, como de resto o filme tem essa aura improvável de superstição infantil, que se manifesta em detalhes pouco verossímeis. E as ameaças tomam corpo e rumo definidos quando o barco sai à luta pelo peixe de cada dia. Um tubarão dá seu recado na perna de um marinheiro, enquanto outro membro da tripulação tem um gancho enterrado acidentalmente na mão. E por aí vai.
Dado que ‘‘Mar em Fúria’’ é relativamente conciso em seus 129 minutos, o espectador não tem muito que esperar pela ação. E esta a parte boa. Em que pese a esquálida dramaturgia, o filme é muito mais divertido do que, por exemplo, a lúgubre carnificina de ‘‘O Patriota’’. O ‘‘Andrea Gail’’ em breve está mergulhado no vórtex da diabólica tormenta, confeccionada com o mais alto padrão da competência computadorizada. Uma vez e felizmente abandonados no epicentro dos vagalhões, nosso convencimento é inegável, e o filme oferece seu único momento de grandeza quando consegue achatar a platéia sob o peso de avassaladora e sufocante massa líquida. Convenhamos que diante disso é mínimo o mérito do alemão Wolfgang Peterson - que já foi cineasta promissor em ‘‘O Barco’’ e ‘‘Inimigo Meu’’ - e máximo do time de craques que digitalizou e formatou esta complicada e aterrorizante previsão do tempo. Mortal para a tripulação do ‘‘Andrea Gail’’, a tempestade se revela paradoxalmente um alívio e um consolo para o espectador.

mockup