São Paulo - A Plebe Rude, que acaba de completar 30 anos, é uma das poucas bandas remanescentes do chamado rock de protesto, que dominou a cena musical brasileira nos anos 80, ainda na ditadura militar. Depois de brigas entre os antigos integrantes, a banda voltou à ativa com novos músicos, tendo o vocalista Philippe Seabra como líder. Agora, eles lançam o CD e DVD ao vivo ''Rachando o Concreto'', no qual tocam as músicas do primeiro álbum, ''O Concreto Já Rachou'' (1985), além da inédita ''Tudo que Poderia Ser''. Na entrevista abaixo, o vocalista Philippe Seabra falou da apatia das bandas brasileiras e sobre como foi tocar ao vivo, de costas para o Congresso, em Brasília.
Apesar de diversos problemas políticos que temos hoje, não vemos mais bandas com atitude, como foi o Plebe Rude. Não temos contra o quê protestar?
Certamente, a Plebe Rude ficou meio estigmatizada como banda de protesto. O fato de sermos de Brasília contou muito para que isso acontecesse. Mas creio que a temática é mais para sociopolítica. Crescemos em Brasília, uma cidade que tinha poucos anos a mais do que a gente, uma utopia forjada que provavelmente pareceu funcionar melhor numa maquete do que na vida real. Sempre falei ao Renato Russo, se não fosse por Brasília, nada disso aconteceria. O isolamento físico e cultural do resto do país fez o rock de Brasília e nos forçou a criar a nossa cultura.
As pessoas ainda estão interessadas em bandas com atitude?
Depende da definição de ''atitude''. Também depende de que mercado você está falando. Se for a do mainstream, que basicamente se restringe a artistas que conseguiram penetrar na mídia, não, a plateia não esta interessada em atitude. Ela só quer sucesso. E tanto faz de onde vier. Pode ser axé, sertanejo, pop rock. O que embala as feiras agropecuárias e festivais é sucesso, não segmento musical. O povo quer cantar junto. Você realmente acha que grande parte da plateia nos shows do U2 conhece a banda a fundo? Claro que não. Só querem beber cerveja e cantar a música da rádio.
A escolha em gravar em Brasília teve um significado político?
Pode falar o que quiser, mas a gente adora Brasília. Afinal, foi lá que tudo começou e é onde tenho meu estúdio e montei a minha família. Claro que tocar as músicas mais viscerais de costas para o Congresso tem um quê de provocação. O diretor Rodrigo Giannetto pegou o ângulo fechado do meu microfone, com o Congresso atrás. Com o toque rápido no foco, mudava o plano dando um efeito dramático. E ficou lindo. O por do sol como cenário, e nada mais. Nada daqueles telões Led que estão em todo lugar, todo DVD. Estávamos divididos entre gravar em São Paulo e Brasília.
Porque vocês decidiram gravar esse CD e DVD ao vivo?
Era a hora, muito por causa das datas comemorativas. E queríamos registrar esse momento tão bacana da banda. É que sempre tivemos problemas internos, e agora estamos numa formação onde reina a amizade e respeito. Queria ter tido isso há 15 anos. Quisemos compartilhar isso com os ''plebeus'' que acompanham a banda tão de perto.
A banda pretende lançar novos discos com material inédito?
Sim. Tínhamos quase um disco inteiro de inéditas na manga quando decidimos pelo DVD. A música ''Tudo que Poderia Ser'', a inédita do DVD, representa bem essa fase da banda, com Clemente mais que consolidado na Plebe.
O que mudou desde que vocês lançaram o primeiro disco da carreira, intitulado ''O Concreto Já Rachou'', até o mais recente, ''Rachando o Concreto''?
Nossa! Muita coisa. São 30 anos. Para ser sincero, eu nem saberia por onde começar. Até hoje, bebemos na fonte do pós-punk, mas é mais a postura do movimento do que o som de uma ou outra banda específica. A nossa indignação com as coisas continua muito firme. Mas não quero que as pessoas achem que nós só fazemos música de protesto. São poucas as canções no repertório de sete discos que têm esse lado mais didático, político. Gosto de pensar que a temática abordada pela banda é mais consciente. O que eu quero mesmo que as pessoas vejam nesse repertório do DVD é a força desse movimento do rock de Brasília, que rompeu todas as barreiras possíveis, e do papel da Plebe Rude nele, sem absolutamente apoio nenhum.
Há alguma chance de a banda voltar a tocar com a formação que tinha no início?
Não. Nós tentamos fazer isso em 2000, com o lançamento do disco ao vivo ''Enquanto a Trégua não Vem'', mas todos os problemas do passado voltaram. Não deu certo. Agora que estamos com o Clemente - que continua firme e forte com os Inocentes, também fazendo 30 anos -, não temos motivos para olhar para trás.

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