O som das pedras
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Traduzir os elementos do jazz para a literatura seduziu vários escritores ao longo do século 20. O mais dedicado foi Jack Kerouac que, na década de 50, criou uma narrativa em que procurava reproduzir o fraseado musical do Bebop, vertente do jazz imortalizada por músicos como Charlie Parker e Dizzy Gillespie.
A escritora norte-americana Toni Morrison também se aventurou em caminho semelhante. Elegeu a música que floresceu no início do século passado como um dos elementos principais de seu romance ''Jazz''. Em suas palavras, não queria simplesmente fazer um fundo musical ou criar referências decorativas ao jazz: ''Queria que a obra fosse uma manifestação do intelecto, da sensualidade, da anarquia da música, sua história, sua abrangência e sua modernidade''.
''Jazz'' acaba de ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras em edição de bolso. Trata-se de um romance que trabalha com a inversão do tempo. Nas primeiras páginas a autora apresenta o trágico final da história. Na sequência, entre ondas de reminiscências, revela o passado dos personagens entre a paixão e a condição dos negros urbanos no início do século 20 nos Estados Unidos.
Joe ganha a vida vendendo produtos de beleza de porta em porta. Violet, sua esposa, trabalha alisando cabelos pixains de casa em casa. Provindos da área rural, residem no Harlem, bairro negro de Nova York. Certo dia Joe arruma uma amante 30 anos mais nova. Quando a garota lhe dá o fora, perde a cabeça e a mata. Violet, ao saber de tudo, vai até o velório e, com uma faca de açougueiro, retalha o rosto da menina no caixão.
Nenhum dos dois é denunciado. Seguem suas vidas normais apenas com uma sombra sobre suas costas. São justamente essas sombras que Toni Morrison vai desenrolando, utilizando uma via de mão dupla onde passado e presente se cruzam em algum canto escuro. As implicações da sociedade escravocrata americana se misturam a uma história de amor.
Toni Morrison (pseudônimo da professora universitária Chloe Anthony Wofford nascida em 1931), foi a primeira mulher negra a receber o Nobel de Literatura, em 1993. Ganhou notoriedade após a publicação de ''Amada'', romance transformado em filme por Jonathan Demme. Uma das características de sua obra - romances como ''O Olho Mais Azul'', ''Amor'', ''Paraíso'' e ''Compaixão'' - está em realizar, como pano de fundo de suas histórias, um retrato da condição do afro-americano em diferentes épocas da segregada sociedade norte-americana.
''Jazz'' é formado por várias vozes que trafegam entre o passado e o presente sem grandes divisórias. As marcas do tempo fazem das relações humanas uma espécie de loja de quinquilharias. Em suas prateleiras, alguns objetos úteis, outros inúteis. Alguns carregados de sentido, outros completamente vazios. A atmosfera desenvolvida por Toni Morrison não aproxima essas vozes da música, mas daquilo que o jazz pode mobilizar tanto no corpo como na mente. Algo como o som das pedras utilizadas como travesseiro nas noites estranhas.
Serviço
- Jazz
Autor - Toni Morrison
Editora - Companhia das Letras
Tradução - José Rubens Siqueira
Quanto - R$ 21 (214 pág.)
Quando Joe sussurrou para ela através da fresta de uma porta a se fechar, sua vida havia se tornado quase insuportável. Quase. A carne, fortemente desprezada pelos irmãos, mantivera em segredo o apetite para o amor que grassava por dentro. Vi peixes inchados, serenamente cegos, flutuando no céu. Sem olhos, mas de alguma forma dirigidos, esses navios aéreos nadam abaixo da espuma das nuvens e ninguém consegue desviar os olhos deles porque é como ver um sonho privado. Era assim a fome dela: hipnotizante, dirigida, flutuava como um segredo público logo abaixo da cobertura das nuvens. Alice tinha trabalhado duro para privatizar sua sobrinha, mas não era páreo para a música que se infiltrava pela cidade, que implorava e desafiava todo santo dia. ''Venha'', dizia. ''Venha e faça coisas erradas''. Até mesmo avós que varriam as escadas fechavam os olhos e punham a cabeça para trás ao celebrarem sua doce desolação.
(Fragmento de ''Jazz'' de Toni Morrison)


