No romance ‘‘Buddy Bolden’s Blues’’, o escritor Michael Ondaatje cria uma história para um homem sem história: Buddy Bolden, um dos inventores do jazz
Em 1931 foi enterrado, em New Orleans, o corpo de um homem negro que atendia pelo nome de Buddy Bolden. Barbeiro de profissão, passou metade de sua existência num asilo para loucos. Em seu prontuário, os médicos registraram as seguintes palavras: ‘‘demência precoce, tipo paranóico’’.
Antes de ser internado num hospital psiquiátrico em 1907, Bolden trabalhava numa pequena barbearia durante o dia e, à noite, tocava cornetim em bares e bordéis de New Orleans. Com sua banda, percorria todos os prostíbulos da região levando platéias ao delírio. Tinha uma maneira particular de tocar, uma forma revolucionária carregada de força e originalidade.
Na realidade pouco se sabe sobre Buddy Bolden. Ele nunca fez nenhum registro de sua música, não deixou nada gravado ou escrito. A única coisa que sobreviveu foi uma fotografia apagada onde aparece ao lado dos músicos de sua banda. Sua música e seu modo de tocar permaneceram na memória de muita gente. Apesar da obscura trajetória, é considerado um dos criadores do jazz.
A figura de Buddy Bolden sugere que quanto menos se sabe de uma pessoa, mais interessante ela se apresenta. A partir de mínimas informações a mente é impelida a preencher com imaginação os espaços vagos, os buracos escuros, o silêncio do vazio. Essa foi a experiência do escritor Michael Ondaatje na criação do romance ‘‘Buddy Bolden’s Blues’’ que acaba de sair pela Editora Companhia das Letras.
A partir de escassos dados sobre Bolden, Michael Ondaatje desenvolveu uma história para um homem sem história. Os fiapos de memória de quem o ouviu tocar se transformam num delicado tear. As malhas do tecido, confeccionado com a habilidade do escritor, revela um intenso personagem. Uma existência meteórica na arte e uma vida conflituosa.
Em ‘‘Buddy Bolden’s Blues’’, o lendário músico acorda cedo e começa a cortar cabelo, fazer barba e jogar conversa fora com os frequentadores da barbearia. Por volta das onze horas da manhã, começa a beber com os clientes e, depois das duas da tarde, ninguém se atreve a cortar os cabelo e muito menos fazer a barba. Logo ao anoitecer, Bolden dava início a uma maratona pelos bordéis da cidade, onde tocava e desfrutava dos carinhos das prostitutas.
Segundo a lenda, Bolden teria enlouquecido por ter unido, em seu jeito de tocar cornetim (instrumento de sopro que posteriormente foi substituído pelo trompete nas bandas de jazz), a música de Deus e do diabo. Em outras palavras, misturava elementos da música negra religiosa (o som de Deus) com elementos do blues (o som do diabo). Um sacrilégio para a época. O resultado, algo nunca visto antes em termos musicais, terminou em loucura.
A lenda também diz que a gota d’àgua para sanidade de Bolden foi a intensidade com que tocava. Numa de suas apresentações de rua, por exemplo, teria ficado tão absorto em sua própria música que, perdendo a noção da realidade, provocou o rompimento das veias do próprio pescoço. Esse episódio é dimensionado de maneira extasiante por Ondaatje. Após o fato, nunca mais voltaria a tocar. Pleno de música, explodiu a arte e abandonou a razão do mundo dos homens.
Michael Ondaatje nasceu no Sri Lanka, onde morou até os 11 anos de idade. Descendente de ingleses, holandeses e indianos, estudou na Inglaterra. Em 1962, transferiu-se para o Canadá, país em que reside até hoje. Ficou mundialmente conhecido com a publicação de ‘‘O Paciente Inglês’’, que foi transformado em filme pelo cineasta Anthony Minghella. O escritor possui dois bons romances publicados no Brasil, ‘‘Na Pele de um Leão’’ (Editora 34, 1998) e ‘‘Bandeiras Pálidas’’ (Companhia das Letras, 2000), além de ‘‘O Paciente Inglês’’ (Editora 34, 1997).
‘‘Buddy Bolden’s Blues’’ é uma obra que antecede o trabalho conhecido e aclamado de Ondaatje atualmente. Publicado originalmente em 1976, possui uma estrutura fragmentada onde a poesia é incorporada ao tecido da prosa. Não se trata de uma biografia romanceada, mas pura e exclusivamente literatura – mesmo quando faz uso de informações reais e históricas. Um livro escrito de maneira despretensiosa, atribuindo pouco valor à linearidade. A força do texto se apoia em dois pilares básicos, a sensibilidade narrativa do autor e a figura de Bolden. Dois pilares que se encontram no infinito, um lugar chamado loucura.
‘‘Buddy Bolden’s Blues’’ é jazz na ausência de som.
•‘‘Buddy Boldens’s Bues’’ de Michael Ondaatje, Editora Companhia das Letras (telefone(11) 3846-0801), tradução de Paulo Henriques Britto, 176 páginas, R$ 22,50.

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