Marianne Moore (1887-1972) e Elizabeth Bishop (1911-1979). Esses são os nomes femininos mais cultuados da poesia norte-americana moderna. Embora a literatura das duas estejam equilibradas num mesmo patamar, o leitor brasileiro deslocou seu interesse por Bishop.
Esse interesse não foi à toa. Elizabeth Bishop morou por quase duas décadas no Brasil e incorporou a imagem do país em seus versos. Costumava dizer que não sabia o quanto o Brasil havia enriquecido sua poesia, mas não tinha dúvidas que o país tinha enriquecido sua vida. Chegou a traduzir para o inglês versos de Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira.
Nos último anos Bishop tem recebido uma atenção especial por parte das editoras brasileiras. Vários livros foram publicados trazendo seleções de poemas, contos, cartas e ensaios. Entre eles está ‘‘Flores Raras e Banalíssimas’’ (Editora Rocco, 1995), onde a pesquisadora Carmen L. Oliveira desvela a relação amorosa de Bishop com a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares.
Agora um novo título chega às livrarias, ‘‘O Iceberg Imaginário e Outros Poemas’’. Lançado pela Editora Companhia das Letras em edição bilíngue, a obra é a mais completa antologia dos versos de Elizabeth Bishop publicada no Brasil. Organizado e traduzido por Paulo Henriques Britto, o livro traz textos escritos entre 1946 a 1983 que apresentam um bom panorama da produção da autora.
Bishop foi um tipo de artista que pautava sua produção não pela quantidade, mas pela qualidade. Publicou poucos livros, mas seus poemas tornaram-se referência da literatura norte-americana. Uma das principais características de seus versos está no estilo descritivo. Partindo de seu próprio foco de visão, sua poesia descreve paisagens, coisas, pessoas, animais e situações, construindo detalhes de percepção que enriquecem o objeto observado.
A biografia de Bishop possui algumas doses trágicas. Aos oito anos de idade perdeu o pai e logo depois a mãe foi internada num hospital psiquiátrico. Passou a viver com parentes, pulando de casa em casa ao lado de pessoas estranhas. Na juventude, com a sensação de orfandade batendo forte, aventurou-se em inúmeras viagens. Juntamente com o abuso no uso de álcool, assume sua homossexualidade num mundo hostil. A depressão regular e o alcoolismo a colocam em várias situações suicidas.
Numa de suas viagens, desembarca no Rio de Janeiro em 1951, onde conhece Lota. As duas se apaixonam e passam a morar juntas no sítio de Lota, em Petrópolis. A harmonia se prolonga por dez anos e depois começa a entrar em colapso. Bishop passa a viver entre Ouro Preto e Nova York, onde começa a trabalhar como professora. A conturbada relação entre elas chega ao fim quando Lota suicida-se durante uma visita à Bishop nos Estados Unidos, em 1967. Alguns autores afirmam que a paixão de Lota por Bishop foi a causa de sua morte. Mas é provável que vários fatores estavam envolvidos na situação.
Bishop dedicou à Lota seu terceiro livro ‘‘Questões de Viagem’’ (Questions of Travel), publicado em 1965. Nele, a autora se dedica a abordar sua experiência de conhecer o Brasil em versos falando de Santos, Rio de Janeiro, Ouro Preto e Manaus, além de personagens típicos que conheceu. Como a grande maioria de sua produção, são poemas longos onde a descrição é um retrato personalizado de um olhar imaginativo.
A relação de Bishop e Lota pode ser descrita como o som da chuva sobre o fogo. Por outro lado, a literatura de Bishop pode ser descrita como o som do fogo sobre a água.
O Iceberg Imaginário e Outros Poemas – De Elizabeth Bishop, Editora Companhia das Letras, seleção, tradução e estudo crítico de Paulo Henriques Britto, 376 páginas, R$ 33,50.

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