Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Pela primeira vez em sua carreira – de 33 anos – o ator Marco Nanini sobe ao palco para atuar num espetáculo solo. ‘‘Uma Noite na Lua’’ - que fez sua estréia em novembro de 98, no Rio de Janeiro, e abiscoitou nove prêmios - tem duas apresentações no Guairão, em Curitiba: hoje e amanhã, às 21 horas.
É uma comédia com ares surrealistas, mas tem toda uma delicadeza poética, no texto de João Falcão. Ela começa com um sujeito chegando em casa (o personagem não tem nome), vindo de uma festa. Nessa festa ele conheceu um ator que estava à procura de um texto e, num rompante de entusiasmo, disse que tinha uma peça que caía como um figurino para a situação.
Agora, na sua casa, o homem tem que escrever o monólogo. É a mesma coisa que mandar um foguete da Nasa para o espaço – ele simplesmente está na maior enrascada.
Apesar disso, o compromisso está assumido e ele tem como prazo as horas dessa noite. A partir daí a platéia vai, literalmente, entrando nos seus pensamentos, na sua imaginação, nas distrações que acontecem entre uma situação e outra. Essa viagem para o interior da mente do pobretão comanda o espetáculo.
Marco Nanini vive esse homem, de certa forma rico de idéias interessantes, mas que nunca as concretizou. Se pensava, não escrevia. Se escrevia, não terminava. Se terminava, ninguém lia. Parece que tudo na vida não passa de um ensaio, onde os castelos fragilmente erguidos desabam a um sopro de realidade.
‘‘Ele consegue pensar, mas tem dificuldade de realizar’’, explica Falcão. Para Nanini é complicado abordar aquilo que faz no palco. A um repórter, confessou: ‘‘Fico louco quando me pedem para definir a peça. A trama está escrita na primeira página: é um homem tentando criar uma obra de arte.’’
Aliás, um homem solitário e infeliz porque perdeu Berenice, seu grande amor. Ela deixou-o depois de esgotar a paciência com a crônica falta de dinheiro do parceiro, que não dá para pagar as coisas básicas, como luz, gás e condomínio. Esse é o golpe mais doloroso a atravessar-lhe a alma.
Mas a platéia embarcou numa viagem que vai além do relato do personagem. Por exemplo: quando o homem enfia a cabeça num balde, os espectadores vêem projetada a imagem de seu rosto dentro d’água, balbuciando algumas palavras. Noutra cena, quando ele abre a geladeira e joga ovos na parede, descarregando a raiva que sente de Berenice, um pintinho sai correndo de dentro de um ovo.
O atordoado personagem divide-se na sua criação. Ele não fica somente na pele de um escritor, mas passa a se preocupar com o custo da peça que está escrevendo. Ao enumerar os pagamentos de cenógrafos, marceneiros, técnicos de som, figurinistas, diretor, etc., acaba por contracenar com o telão, no qual são projetados os créditos, como no cinema.
João Falcão, autor de ‘‘A Dona da História’’, o grande sucesso do momento com Marieta Severo e Andréa Beltrão, conta que escreveu ‘‘Uma Noite na Lua’’ pensando em Nanini. Eles se conheceram na série ‘‘Comédia da Vida Privada’’, e estreitaram a amizade quando Falcão e Guel Arraes adaptaram e dirigiram ‘‘O Burguês Ridículo’’, de Moliére, não só interpretado como também produzido pelo ator.
Um terceiro elemento decisivo para o êxito da montagem é a presença da coreógrafa Deborah Colker. Ela é a responsável pela preparação corporal de Marco Nanini e foi integrada à equipe por sugestão dele mesmo. No início dos ensaios a bailarina chegou a ensinar o ator a fazer passos de ‘‘Rota’’, um de seus bailados. E obrigou-o a se pendurar na roda-gigante do espetáculo, mas tudo isso evoluiu para algo mais sutil. Porém, o batismo do ator para os encontros que eles realizavam, ficou na história da peça ‘‘Rottweiler’’.
‘‘Uma Noite na Lua’’, texto e direção de João Falcão. Com Marco Nanini. Sexta e sábado, no Guairão, às 21 horas. Ingressos: R$ 30,00 (platéia), R$ 25,00 (primeiro balcão), R$ 15,00 (segundo balcão). Informações pelo telefone (41) 200-1993.

mockup