O solitário genial
Última parte de uma trilogia irretocável, Meu Tio (veja a programação de cinema nesta página) é um do momentos mais inspirados - de resto, todos... - de um criador bissexto, o gênio Jacques Tati, um singular criador que levava em si a essência do cômico, tão pessoal quanto universal. Depois de fazer o irresistível carteiro em Carrossel de Esperança, a estréia em 49, e de subverter uma estação balneária em As Férias de Monsieur Hulot , em 53, o diretor-roteirista-ator-personagem voltaria em 58 com este Mon Oncle.
O filme, a exemplo dos demais na reduzida mas sempre coerente filmografia de Tati, é o protesto de um pequeno burguês. Mas para conhecer melhor este engraçadíssimo homem-protesto é preciso saber o que vai à sua volta. M. Hulot mora numa velha casa; seu sobrinho e os pais de seu sobrinho moram outra, ultramoderna, funcional em excesso e sem alma. O contraste evidente é entre o estilo de vida do gentil Hulot e a aridez modernosa e sem alma dos parentes.
Cerrando fileiras com Chaplin nas cruzadas quixotescas, atuando em registro de comédia mais ou menos próximo, inclusive com a utilização abundante de gags visuais, Tati criou este ser tímido, distraído, delicado, um solitário anarquista romântico. Hulot é um crítico perene, alguém que visa mais o humano que o social. Mon Oncle deflagra antes um processo demolidor da classe média que pensa estar sendo up to date do que propriamente do modernismo em si. Intransigente defensor da qualidade de vida simples nas grandes cidades, Tati levou para o cinema esta recusa da mecanização burra, da geometria rígida criando aprisionando, compartimentando seres humanos.
Meu Tio, de maneira definitiva e otimista, sugere literalmente a volta da política da boa vizinhança, da delicadeza de trato entre as pessoas. E prega, sem pronunciar uma única palavra , o desprezo pelos inúteis e transitórios, pelos acomodados e pelos parasitas de uma burguesia insípida e moribunda. Tudo, é claro, sem ódio ou rancor, mas com o melhor humor que o cinema guardou para oferecer as novas gerações.(C.E.L.J.)





