A velha visão romântica da Segunda Guerra Mundial pregada por Hollywood foi detonada por Steven Spielberg. Assim como Francis Ford Coppolla, com ‘‘Apocalypse Now’’, e Stanley Kubrick, com ‘‘Nascido Para Matar’’, enterraram a imagem heróica sobre a Guerra do Vietnã, Spielberg substitui as batalhas épicas, atos de bravura e as fugas mirabolantes por corpos se despedaçando e confrontos sangrentos em ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’ (Saving Private Ryan), que estréia hoje no Brasil. Nos Estados Unidos, a cruel realidade de uma das mais terríveis batalhas da história do século - a invasão da Normandia pelas tropas aliadas em 1944 no chamado Dia D - consegue arrebatar verdadeiras legiões de público aos cinemas: com quatro semanas em cartaz já arrecadou US$ 125 milhões.
O filme segue a linha histórica de ‘‘A Lista de Schindler’’, que arrebatou seis Oscars, inclusive melhor filme e melhor direção. Nesta produção, Spielberg trabalha pela primeira vez com um amigo de infância: Tom Hanks, que interpreta o Capitão Miller, o líder de uma das equipes que desembarcam na Praia de Omaha.
Só que para viver o protagonista, Hanks e quase todo o elenco tiveram de suar a camisa. Spielberg contratou o Capitão da Marinha americana Dale Dye para dar um treinamento aos atores. Em vez de regalias e paparicos, costumeiros para estrelas de Hollywood, os atores foram tratados como recrutas em treinamento de sobrevivência. Nada de massagistas, quartos especiais ou personal trainers. O elenco passou oito dias sob treinamento rigoroso. Dye chamava cada um de shit (merda, em inglês). Mas aí Hanks tinha um privilégio: era o shit nº 1. Eles ainda tinham de dormir apenas três horas por dia, enfrentar fila para ir ao banheiro, receber minguados biscoitos como alimento e ficar debaixo de chuva. Tudo parte da estratégia de Spielberg em trazer o máximo de realismo às cenas.
Esta estratégia, porém, quase provocou a debandada de atores. Alguns fraturaram os tornozelos, outros tiveram pneumonia. Os artistas principais chegaram a se reunir para abandonar o set. Hanks foi contra. Sob a alegação de que o treinamento era necessário para incorporar o espírito do filme, o ator conseguiu convencer os demais a prosseguir.
Outra estratégia adotada por Spielberg foi em relação a Matt Damon, que interpreta o soldado James Ryan. É em cima deste personagem que se desenvolve a missão do pelotão de Miller, que tem de resgatar o único sobrevivente da família Ryan, de quatro irmãos. Quando Miller o encontra, James se recusa a abandonar o seu pelotão, o que provoca desavenças entre os soldados. Como Damon aparece apenas na segunda metade do filme, o diretor resolveu deixá-lo de fora dos treinamentos, para provocar conflitos entre ele e o resto do elenco. Este espírito de realismo nos ensaios do filme foi uma das preocupações de Spielberg, um obstinado pelas histórias de guerra que seu pai contava quando era criança. O diretor dizia, no entanto, estar farto do cinismo como era tratado o tema no cinema e resolveu passar o máximo de realismo ao filme, retratando de forma sangrenta a batalha do Dia D. No início do filme o que se vê é uma verdadeira guerra campal destacada com detalhes sádicos. Tendo como plano a visão do Capitão Miller, a câmara se movimenta como se estivesse no meio da artilharia. Logo no primeiro take de impacto, um tiro atinge a cabeça de um soldado e partes de seu cérebro voam.
Isso foi suficiente para que o filme fosse classificado no mercado americano como R-17: menores de 17 anos só podem assisti-lo acompanhados de adultos. A violência, porém, não é gratuita. No filme, ninguém mata ninguém pelo prazer de matar. Spielberg até reconhece que a produção é violenta, mas ressalta que o que colocou na tela foi o que aconteceu na Segunda Guerra.
O filme, orçado em mais de US$ 100 milhões, foi aclamado pela crítica americana e pelo público. A imprensa o classificou como ‘‘o melhor filme de guerra’’ e o apontou como sério candidato ao Oscar. Hanks também foi muito elogiado e já é considerado forte concorrente à estatueta de melhor ator. Caso ganhe, vai colocá-la ao lado das que recebeu por ‘‘Filadélfia’’ e ‘‘Forrest Gump’’.Reprodução‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’: realismo às últimas consequênciasFernando Miragaya
Cult Press

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