O sol escorrendo pelo ralo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
"A pessoa entediada, incapaz de alegria e de dor, organiza com frequência seu mini-coliseu particular."
"A juventude é estranha porque é a velhice do mundo passada indefinidamente a limpo."
"Se acaso, por um momento, teu coração ficar vazio, arruma a casa, abre a janela, põe tua roupa nova para que o vento a caminho, mais uma vez, te arrebate vivo."
"O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico."
Frases como essas estão espalhadas pelas crônicas do escritor mineiro Paulo Mendes Campos (19221991) reunidas em dois volumes que acabam de ser lançados pela editora Companhia das Letras: "O Mais Estranho dos Países" e "O Amor Acaba". São textos escritos na década de 60, publicados em diversos jornais e revistas da época, selecionados por Flávio Pinheiro.
"O Mais Estranho dos Países" é formado por duas sessões. A primeira traz crônicas onde Mendes Campos exalta os acontecimentos brasileiros da década de 60 (bossa nova, cinema novo, futebol, arquitetura, etc.) e realiza descrições de cidades e regiões brasileiras de maneira peculiar. A segunda sessão traz perfis de personalidades famosas (como Antônio Maria e Ari Barroso), amigos e figuras de anedotário urbano.
"O Amor Acaba" traz uma seleção de crônicas líricas e existencialistas. E guarda o melhor estilo de Paulo Mendes Campos, que leva a crônica para o território da poesia. Em vários textos faz da crônica prosa poética. Algo como um poema que abandonasse a forma versificação e mudasse, de mala e cuia, para o quarto da prosa.
Mendes Campos talvez não tenha sido o primeiro a utilizar o procedimento a enumeração na estrutura narrativa das crônicas, mas fatalmente foi quem o popularizou. Um procedimento milenar que elegeu a poesia sua moradia. Consiste em frases que se agrupam, com total liberdade, a partir de um sentido. Um universo construído a partir de fragmentos caóticos, mas com um invisível fio condutor que se revela no final. Nada mais do que o velho e inesgotável vagar poético.
A crônica que dá título ao livro, "O Amor Acaba" segue nessa direção: "O amor acaba. Numa esquina, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos e alumínio e espelhos monótonos; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; (...)".
Na época, esse tipo de crônica causou certo tumulto. Não pela forma, mas por optar por falar da morte do amor em vez de falar de seu nascimento (o amor não morria nos anos 60). Crônicas de outros autores surgiram assinalando o outro lado da moeda ("O amor começa"). Essa é uma das características dos textos de Mendes Campos presentes no volume. Os temas propostos não são um alegre parque de diversão. É possível até encontrar algum tom de humor, mas que não se iguala ao humor imediato da crônica em vigor nos dias de hoje.
Vale citar títulos de alguns textos: "Anatomia do Tédio", "A Arte de Ser Infeliz", "Folclore de Deus", "Canto Fúnebre", "O Vendedor de Gravidade", "Encenação da Morte". "A Emulação do Desastre", "Últimos Apelos", "Desquitados Que se Amam", "Em Face dos Mortos", "Declaração dos Males" e "Discurso à Beira do Caos". Resumindo, Paulo Mendes Campos não se propõe a brincar de carrossel num jardim florido. Nem colocar uma flor na lapela e sair distribuir dentes e sorrisos pelas ruas.
As crônicas presentes em "O Amor Acaba" também passam por uma mistura de crônica e ensaio. O autor, a partir de determinado tema, investiga o assunto expondo referências teóricas de pesquisadores. Uma espécie de rápida síntese do processo do pensamento do tempo presente em transformação. Tudo isso faz com que crônicas escritas 50 anos atrás permaneçam falando de atualidades. Até parece mágica.
Paulo Mendes Campos, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade, é um dos grandes escritores que fizeram da crônica um acontecimento único na história da literatura brasileira. E não como uma questão de mágica, apenas percepção, trabalho e verbo. Com o sol nas antenas ou escorrendo pelo ralo. E a ironia fatal: "A vida não vale uma crônica".
Serviço:
"O Amor Acaba"
Autor Paulo Mendes Campos
Editora Companhia das Letras
Seleção e apresentação Flávio Pinheiro
Páginas 288
Quanto R$ 39
"O Mais Estranho dos Países"
Autor Paulo Mendes Campos
Editora Companhia das Letras
Seleção e apresentação Flávio Pinheiro
Páginas 352
Quanto R$ 45
Fragmento:
Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto se si mesmo ao lembrar que há muito anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para contemplar uma flor silvestre; (...) quem compra verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; que guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funciona; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; que guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em lento e misterioso transe diante de velhos troncos, dos musgos, dos liquens; (...) quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o pensamento do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura, e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.
(Fragmento da crônica "Pequenas Ternuras", de 1966, que integra o livro "O Amor Acaba", de Paulo Mendes Campos)


