O sol de olhos baixos em paz
O sol de olhos baixos em paz
Com a morte de
Octávio Paz,
ocorrida no último
domingo, o século 20
perde um de seus
grandes escritores
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
O México amanheceu ontem um pouco mais triste que o normal. O sol ofereceu alguns minutos de trégua para que os transeuntes levantassem seus olhos para as manchetes estampada nas páginas dos jornais. Nas bancas, as capas dos periódicos anunciavam, com pesar, a morte do poeta e ensaísta Octávio Paz, ocorrida na noite do dia anterior, domingo, dia 19, alguns dias após completar 84 anos de idade. A negra sombra do câncer, que o colocara numa cama nos últimos dois anos, ocupou por completo o corpo do escritor.
Octávio Paz foi o maior literato que o México formou neste século. Agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1990, era considerado um dos grandes escritores contemporâneos. Com uma mente enciclopédica, em seus escritos Paz trafegou nos mais variados temas estabelecendo conexões com a síntese das manifestações artísticas. Sua obra O Labirinto da Solidão, um extenso estudo sobre o México, tornou-se referência para a compreensão da cultura daquele país.
Foi-se o escritor, ficaram as palavras. No complicado manejo do verbo, o questionamento da relação do homens com as formas de linguagem foi uma constante preocupação de Paz. Em suas palavras, Nós, homens, falamos palavras que designam isto ou aquilo. Não dizemos coisas, e sim nomes de coisas. Por isso as palavras têm sentido, direção: são pontes entre nós e as coisas e os seres do mundo. Cada palavra aponta para um objeto ou uma realidade fora dela. Os deuses, entretanto, segundo nos cantam as cosmogonias, falam estrelas, rios, montanhas, cavalos, insetos, dragões. Para eles falar é criar. Sua fala é produtiva.
Com sangue índio e espanhol, Octávio Paz nasceu em 31 de março de 1914 na Cidade do México. Começou a escrever poesia ainda na adolescência, publicando seu primeiro livro em 1933. Na juventude participou da Guerra Civil Espanhola, bem como de vários movimentos literários e de artes plásticas da vanguarda mexicana. Em 1945 ingressou no serviço diplomático exercendo cargos em países como Estados Unidos, Japão, França e Suíça. Em 1968, renunciou ao seu último cargo como embaixador, na Índia, em forma de protesto contra a repressão do governo mexicano aos movimentos estudantis. De volta ao México, fundou em 1971 o suplemento literário Plural, em seguida a revista de crítica literária Vuelta. A partir desde período passou a percorrer universidades de várias partes do mundo como professor convidado.
A obra de Paz pode ser bem dividida em dois gêneros, poesia e ensaio. Como poeta, bebeu na fonte dos grandes movimentos literários de vanguarda do século 20. Sua obra mais conhecida, o longo poema Transblanco escrito em 1966, dialoga com alguns dos fundamentos da Poesia Concreta brasileira. Como ensaísta, conseguiu uma infinidade de leitores que o julgavam sublime. Seus ensaios foram escritos com muita inteligência associada à emoção. Com um grande volume de informação e lucidez de pensamento, seus textos fugiam a teorias estéreis e apontavam para a vida existente nas formas de arte. Suas conferências, grande parte delas transformadas em livros, possuíam o mesmo frescor das conferências do escritor argentino Jouge Luis Borges (1899 -1986).
Octávio Paz foi um dos introdutores da poesia japonesa, em especial o Hai-Kai, nos países hispano-americanos. Sua tradução de Senda de Oku do mestre japonês Matsuo Bashô é considerada um marco neste sentido. Sua versão deste caderno de viagem recheado de hai-kais foi publicada no Brasil no começo dos anos 90 pelas mãos de Olga Savary.
Para Paz, assim como vários outros poetas subsequentes, a arte poética representaria uma espécie de reserva ecológica da cultura humana. Procurando definir a poesia como um território diferenciado da geografia da realidade, formulou o conceito da poesia como a outra voz (la otra voz). Um pararelo, de certa forma, com a máxima o eu é um outro, de Arthur Rimbaud. Em suas palavras, a poesia seria irredutível às idéias e aos sistemas: É uma outra voz. Não a palavra da história nem da anti-história, mas a voz que, na história, diz sempre outra coisa - a mesma desde o princípio. Não sei como defini-la nem explicar em que consiste a diferença, esse tom que, sem a isolar, a torna única e diferente. Direi apenas que é a estranheza e a familiaridade em pessoa. Basta ouvi-la para reconhecê-la. Resumindo seu raciocínio, se em algum momento histórico conturbado, como este que vivemos, o homem esquecer a poesia, ou mais especificamente, a percepção poética, o homem esquece de si próprio, voltando ao caos original.
Em vários de seus escritos Paz estabelece conexão entre o corpo, no caso o erotismo numa de suas mais belas manifestações, e a gênese da arte, em especial as múltiplas capacidades da linguagem poética. Exemplo: Cada época escolhe sua própria definição do homem. Creio que a do nosso tempo é esta: o homem é um emissor de símbolos. Entre esses símbolos há dois que são o princípio e o fim da linguagem humana, sua plenitude e sua dissolução: o abraço dos corpos e a metáfora poética. No primeiro: união da sensação e da imagem, o fragmento apreendido como cifra da totalidade e a totalidade repartida em carícias que transformam os corpos num provedor e correspondência instantâneas. Na segunda: fusão do som e do sentido, núpcias do intelegível e do sensível. A metáfora poética e o abraço erótico são exemplos desse momento de coincidência quase perfeita entre um símbolo e outro que chamamos analogia e cujo nome verdadeiro é felicidade.
Entre os vários livros de Octávio Paz editados no Brasil, vale citar alguns. Na poesia destaca-se Transblanco (Editora Siciliano) com tradução de Haroldo de Campos. No ensaio a lista é bem mais extensa. Filhos do Barro (Editora Nova Fronteira) reúne conferências proferidas por Paz na Universidade de Harvard sobre a transição do romantismo às vanguardas do início deste século. Convergências (Editora Rocco) reúne conferência sobre temas que vão das arte tântrica ao marxismo, do haiku à filosofia da linguagem, do artesanato a Heráclito. A Outra Voz (Editora Siciliano) ensaios sobre a arte e a história da poesia. A Dupla Chama (Editora Siciliano), um dos últimos livros publicados por Octávio Paz discute a relação entre amor e erotismo e suas implicações no universo da arte. O Arco e a Lina (Editora Nova Fronteira) investiga a arte de fazer poético, da linguagem ao ritmo, da imagem à inspiração, superando os contextos culturais e históricos. Signos em Rotação (Editora Perspectiva) apresenta textos sobre Fernando Pessoa, André Breton, Bashô, Marllamé, Bu¤uel, Cummings e outros. O Castelo da Pureza (Editora Perspectiva) traz a leitura de Paz para a obra revolucionária de Marcel Duchamp.
Talvez o sol não tenha dado uma trégua durante o dia de ontem aos cidadão mexicanos que trafegavam atarefados pelas ruas das cidades. Talvez estivesse apenas de olhos baixos, um pouco como as orelhas de um cão solitário a soleira de uma casa vazia. Talvez o sol não estivesse preocupado com essas coisa e neste dia estivesse apenas poupando os camponeses do excessivo calor em suas jornadas pela sobrevivência.





