Voar é um sonho que acompanha o homem através dos tempos. Um sonho que deu origem a muitas histórias. Entre as histórias mais antigas está a de Ícaro, uma lenda da mitologia grega.
Você já deve ter ouvido alguma coisa sobre ela, pois trata-se de uma história conhecida nos quatro cantos do mundo. Ícaro e seu pai, Dédalo, estavam presos numa torre de uma pequena ilha da Grécia antiga. Para conseguirem a liberdade, constróem asas utilizando penas de pássaros e cera de vela.
No momento da fuga, Dédalo aconselha Ícaro a não voar baixo demais, pois a água do mar poderia molhar as penas das asas. Também aconselha o filho a não voar alto demais, pois o sol poderia derreter a cera das asas.
Mas o jovem Ícaro, encantado com a capacidade de voar e com a sensação de liberdade, foi voando mais e mais alto. Ultrapassou as aves, as nuvens e quando percebeu que está próximo do sol era muito tarde. A cera derreteu e a asa se desfez. Ícaro caiu no mar e morreu.
Embora a história de Ícaro seja bem conhecida e apreciada por pessoas das mais diferentes épocas, ela é um pequeno detalhe dentro de outra história maior, a história de seu pai, Dédalo.
Arquiteto, escultor e principalmente inventor, ele é idolatrado como gênio dentro da galeria dos personagens da mitologia grega. Para você ter uma idéia, ele é considerado o inventor do machado. Também é o responsável pelo projeto e construção do lendário labirinto de Creta, onde o ficava confinado o terrível Minotauro, o monstro metade homem, metade touro.
Se você desejar saber mais sobre a história de Ícaro e, principalmente, de Dédalo, a Editora Ática acaba de lançar um livro que oferece uma boa versão da lenda. Escrito pela norte-americana Jane Yolen e ilustrado por Dennis Nolan, ''Asas!'' chega a introduzir na narrativa a figura do ''coro'', uma das principais características da literatura dramática da Grécia antiga.
Em todas a lendas da mitologia grega os deuses exercem um papel determinante. Com Dédalo e Ícaro não é diferente. O orgulho é o grande tema abordado pela história. Toda vez que os homens se inflam de orgulho e começam a acreditar que podem se igualar aos deuses, alguma tragédia acontece. Os deuses gregos, embora se comovam com o sofrimento humano, punem toda vez que eles passam dos limites.
A lenda de Dédalo está dentro desse contexto. Talentoso inventor, após montanhas de elogios sobre seu trabalho, acaba perdendo a noção da realidade. ''Um homem que só ouve elogios torna-se surdo. Um homem que não vê rival para seu talento tornar-se cego.'' E assim Dédalo torna-se um tremendo metido, insuportável.
Mas o destino se encarrega de corrigir as coisas. Num momento de descuido, Dédalo acaba provocando a morte de seu sobrinho, um garotinho que cai de um alto penhasco.
A punição de Dédalo é ser expulso de sua cidade, Atenas, pelo resto da vida. Vagando pelo mundo, encontra abrigo em Creta, onde passa a trabalhar como arquiteto, projetando a pedido do rei o labirinto do Minotauro, o monstro que devorava homens e mulheres.
A essa altura você pode estar se perguntando mas por que Dédalo e seu filho Ícaro estavam fazendo presos numa torre? É que Dédalo, em sua nova cidade, cometeu outro erro, ajudando uma casal de apaixonados, Ariadne e Teseu - o herói que conseguiu matar o Minotauro. Mas isso é uma outra história. Na mitologia grega, todas as histórias estão interligadas, as ramificações parecem não ter fim. Uma lenda sempre está conectada a outra.
O fato é que Dédalo assistiu a morte do filho sem poder fazer nada. Entre lágrimas pela imprudência de Ícaro, ele voou até uma outra ilha chamada Sicília. Lá continuou sua vida, trabalhando como arquiteto.
O mar onde Ícaro se afogou é chamado até hoje de mar Ícaro. Uma homenagem ao garoto que extasiado pela liberdade acabou perdendo a vida. Como os antigos diziam, liberdade exige responsabilidade.


Asas! - de Jane Yolen, ilustrações de Dennis Nolan, Editora Ática, tradução de Marcos Bagno, 32 páginas, R$ 14,90.

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