No espetáculo ‘‘O Sofᒒ, da Confraria Cênica, de Curitiba, apresentado no Núcleo I na quinta e sexta-feira , um indivíduo tenta enfrentar uma noite em claro, com o fantasma da morte rondando sua porta. A história de Luiz Carlos Pazello dispensa texto. A encenação exigiu do público uma assistência fora do convencional, deixando-o como observador, em pé, encostado nas janelas de dois cubículos, que serviam de cenário. No primeiro quadro, o amedrontado insone (Lucas Francisco) tentava atravessar a noite e não encontrar a morte.
No segundo ato, o outro ator, Anderson Carlos (numa interpretação mais convicente), repete a mesma cena, mas com pulsação diferente. O público assumiu o papel de mosquinhas magnetizadas na janela do apartamento, comprovando que o voyeurismo nunca é saciado, sempre clama por mais imagens. Naquele cubículo em que foi encerrado o ator, o sofá – personagem-título – servia como testemunha e objeto utilitário da solidão. Nessa observação comportamental, o espectador-voyeur sentiu-se um pouco frustrado como Charles Darwin, ao constatar determinados fracassos na nossa escala evolutiva atual.
O personagen, em ambas encenações, estava sintonizado numa frequência acima do normal. O exagero proposital permitiu uma identificação da linguagem e decantar seu comportamento. O enjaulado e seu duplo foram instalados num autêntico laboratório de observação. Por trás do vidro, fica evidente o sofisticado nível da concepção cênica e a maturidade da equipe. Há uma integração das propostas de cada participante da Confraria, seja na cenografia meticulosa elaborada por Arlene Sabino, que conferiu ao duplo muquifo, um impressionante realismo; como também na direção precisa de Silvia Monteiro e na preparação corporal da premiada coreógrafa Ceres Vittori.
‘‘O Sofᒒ se revela numa experiência espaço-tempo, pois coloca o espectador como observador em dois pontos distintos de um mesmo objeto, portanto relativos. A Confraria não apenas flertou com Einstein, mas fez um experimento concreto com a teoria da relatividade. De coordenadas distintas, cada observador faz a descrição desse fenômeno de maneira diferente.
As informações sobre o insone são apenas as observadas. Há pistas no espaço de 3x3 para imaginar quem seria esse personagem. Num raio X imaginário, esse pacato cidadão, seria um assalariado, sem profissão definida, imigrante que veio tentar a vida na cidade grande, com desconhecidos vizinhos vivendo nas mesmas condições. É certo, deixou amores e família muito distantes e não possui amigos. A escolaridade, provavelmente, primeiro grau incompleto. Vivendo situação limite, tentando afastar a morte que o ronda. Ele é pisciano (pela falta de organização) e flamenguista (pelos adesivos no guarda-roupa).
‘‘O Sofᒒ exige do público uma dose extra de paciência. Numa interminável noite de insônia, o que resta é o tédio. Esse espelho nos mostra nossos momentos mais feios, até repulsivos. Definitivamente, não é um espetáculo agradável, mas, sem dúvida, é uma proposta teatral refinada, com fôlego dramático. Ao final, depois do amanhecer, parece que o espectador passou uma noite toda acordado, com uma sensação estranha de que perdeu o norte. Mas entende que ‘‘O Sofᒒ não é espetáculo para descansar do cotidiano.

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