O sincretismo decifrado em filme
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Gramado
Especial para a Folha 2
Faltando apenas exibir os concorrentes de Cuba e Venezuela programados para hoje à noite, o 27º Festival de Gramado já pode contabilizar um feito inédito, desde que se internacionalizou, em 1992. É de longe a mostra competitiva de longas-metragens mais interessante e equilibrada, um rico, surpreendente e original painel de imagens. É uma seleção que vem revelando inesgotável capacidade de sacudir a letargia de qualquer platéia e afligir qualquer júri. E como nessas circunstâncias não mais se trabalha com margens de favoritismo, a tendência sempre perigosa de atomizar a premiação perde aquele ranço de democracia imediatista e ganha legitimidade. Pois de resto há méritos de sobra.
Continuam as homenagens. Na tela, Um Corpo que Cai festeja o centenário de nascimento de Alfred Hitchock. E no palco, o Festival de Gramado reconhece a vida dedicada ao cinema do casal de produtores Lucy e Luis Carlos Barreto. E produtores lato sensu, já que além de dezenas de filmes, eles co-produziram os cineastas Bruno e Fábio Barreto. Todo o clã Barreto - sogra, filhos, noras, genros, netos - veio para a entrega do Troféu Oscarito ao casal, à exceção da atriz Amy Irving, mulher de Bruno. Instituído há dez anos para homenagear personalidades que deram contribuições determinantes ao desenvolvimento do cinema brasileiro, o Troféu Oscarito já foi entregue a Grande Otelo, Walter Hugo Khouri, Anselmo Duarte, Alberto Ruschel, Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e Cinemateca Brasileira de São Paulo, Carlos Manga, Cinédia, José Lewgoy e Nelson Pereira dos Santos.
Embora sem postulados normativos rígidos ou preconceitos quanto a gêneros, o Festival de Gramado sempre privilegiou a ficção. Há alguns raros precedentes históricos, como filmes de nossos dois Silvios documentaristas, Tendler e Back. E há inclusive um Kikito de melhor filme dado há exatos vinte anos a Raoni. É bem provável, embora se admita somente em off, que um dos três concorrentes brasileiros - o documentário Santo Forte - tenha a princípio obtido uma vaga na seleção por causa de mais uma entressafra na produção cinematográfica brasileira, de novo semiparalisada pelos descaminhos causados por uma lei do audiovisual e por leis de incentivo que precisam ser revistas à luz da desvalorização do real e das novas regras da política econômica. Mas observando com atenção e carinho este documento do especialista Eduardo Coutinho (Cabra Marcado para Morrer e O Fio da Memória), mesmo com abundância de títulos em disponibilidade o filme obrigatoriamente faria parte de qualquer mostra, especializada ou não. Aplausos prolongados são o testemunho.
Durante três meses, de 5 de outubro a 25 de dezembro de 1997, do dia da missa celebrada pelo Papa no Aterro do Flamengo às vésperas do Natal, a equipe comandada por Eduardo Coutinho fez a radiografia da fé dos moradores da Favela Vila Parque, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. Através de depoimentos caudalosos e reveladores, os moradores da comunidade narram de que maneira vivem a experiência religiosa. Católicos, umbandistas, evangélicos, todos têm em comum um canal de comunicação direta com o mundo sobrenatural paralelo. Canal que no dia-a-dia tem como condutores Santos, Guias, Orixás e o Espírito Santo.
Coutinho define seu filme como uma teologia da palavra, o espetáculo do imaginário oral. A idéia para o filme nasceu de uma pesquisa sobre identidades brasileiras para uma série de televisão que não chegou a ser produzida. Observando o material, Coutinho percebeu que os depoimentos sobre temas diversos como raça, sexualidade, ética e família, colhidos em muitos Estados, estavam impregnados por concepções religiosas. E um detalhe chamou particularmente a atenção do diretor: qualquer tema se tornava mais fácil para os depoentes quando também expunham crenças religiosas. A conclusão era mais ou menos óbvia: havia um comportamento religioso semelhante mais ou menos unificando o padrão de comportamento social das populações, independentemente de diferenças regionais. Uma outra pesquisa com alguns depoimentos sobre trajetórias religiosas na favela carioca foi o elemento que faltava, isto é, havia um tema e um local determinado, concentrado. Um microcosmo que refletisse a relação entre as pessoas, as crenças e o cotidiano. Para uma total autenticidade, livre de intermediações a não das entidades, Coutinho prescindiu de especialistas: antropólogos, sociólogos, padres. Partiu para o trabalho de campo, câmera de vídeo em punho - opção natural para a captação dos longos relatos dos personagens.
O resultado é fascinante, na medida em que o filme torna possível a captação do vasto universo do imaginário sincrético popular, e por extensão traça um espécie de mapa da alma brasileira. Parece pretensioso mas não é. Quando uma dezena de favelados, com vísceras e imaginação, se põe diante de uma câmera a falar com graça e sinceridade espontâneas sobre seu dia-a-dia de dificuldades e superações, com a ajuda de Deus e dos Orixás, uma reflexão sobre o Brasil torna-se bem mais fácil e atraente.Um dos bons momentos do Festival de Gramado, documentário de Eduardo Coutinho desvenda o imaginário religioso do País
DivulgaçãoMoradores da Favela Vila Parque, do Rio, são personagens do filme Santo Forte, de Eduardo Coutinho, exibido em Gramado





