A morte é um pássaro de asas invisíveis que sobrevoa nossas vidas sem descanso. Certo dia, entre tantos, nos abraça com a firmeza de um imperador, com a delicadeza de uma imperatriz.
No dia 6 de abril último, este pássaro envolveu com suas asas o poeta norte-americano Allen Ginsberg. Se as invisíveis asas não o tivessem tocado estaria amanhã completando 71 anos de idade. Estaria em sua casa ao lado de seu velho companheiro Peter Orlovsky, lendo algum livro, tomando uma cerveja ou colocando comida para os gatos. Mas não, o pássaro é determinado em seu vôo.
A importância de Allen Ginsberg dentro da literatura ocidental é polêmica. Não desvinculando vida e obra, construiu uma poesia visceral, levando em frente o legado de Walt Whitman: a liberdade. Ao lado de Jack Kerouac e William Burroughs, foi o mentor da ‘‘Beat Generation’’, um dos grandes movimentos literário e comportamental deste século.
Ginsberg nasceu em Paterson, Nova Jersey, em 3 de junho de 1926. Seu pai era professor de literatura em cursos secundários. Sua mãe, Naomi, tinha sérios problemas mentais e passou parte da vida internada em sanatórios. Com uma infância e adolescência difíceis, aos 17 anos de idade ingressou na Universidade de Columbia. Lá conheceu Kerouac e Burroughs.
Liberdade Influenciado pelo jazz de Charlie Parker, com sua riqueza de improvisações, incorporou em sua poesia a fala comum das ruas. Perseguindo a total liberdade de criação, voltou seus textos para as experiências imediatas, com temas cotidianos e relatos de viagem (de drogas e de estrada).
Seu primeiro livro, ‘‘Uivo’’ (Howl), publicado em 1956, causou uma revolução nos jovens ávidos por verdades e adrenalina. Processada por obscenidade, a obra só voltaria às livrarias uns anos depois, transformando-se num fenômeno de vendas.
No prefácio de ‘‘Uivo’’, William Carlos Williams alertava para que as senhoras levantassem as barras de suas saias antes de lerem o livro, pois iriam atravessar o inferno: ‘‘Allen Ginsberg passou, com seu próprio corpo, pelas horripilantes experiências relatadas nestas páginas, baseadas na sua própria vida. O mais espantoso não é apenas ele ter sobrevivido, mas também, nessas profundezas, ter encontrado um companheiro a quem pudesse amar, um amor que ele celebra nos seus poemas sem desviar o olhar. Digam o que quiserem, ele nos prova que, apesar das mais degradantes experiências que a vida possa oferecer a um homem, o espírito do amor sobrevive para enobrecer nossas vidas se tivermos o espírito e a coragem e a fé - e a arte! - para resistir.
Proibido ‘‘Uivo’’ ganhou sua edição brasileira em 1984, lançado pela Editora L&PM. Com tradução de Claudio Willer, a edição também trouxe poemas de outros dois livros de Ginsberg, ‘‘Kaddish’’ e ‘‘Sanduíches de Realidade’’. A mesma editora publicou em 1987 ‘‘A Queda da América’’, reunindo textos escritos durante as viagens do poeta pelas estradas americanas entre 1965 e 1971.
Allen Ginsberg sempre esteve presente ativamente em todos os movimentos contraculturais após a década de 40 na América. Esteve presente no movimento Beat, nas rebeliões da contracultura dos anos 60, manifestações contra a guerra do Vietnã, organizações contra a energia nuclear, movimentos ecológicos, organizações de defesa dos direitos das minorias étnicas e sexuais, liberação das drogas, divulgação dos misticismo oriental, manifestações contra a censura, etc, etc.
Correndo o mundo proferindo palestras, realizando leituras de poemas, Ginsberg manteve seus pensamentos inquietantes em ação até seus últimos dias. A lucidez de alguém que compreende seu próprio tempo e deseja transformá-lo em algo melhor. Como uma das frases de seu poema ‘‘Sutra do Girassol’’: ‘‘Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos.
q Uivo - Kaddish e Outros Poemas - de Allen Ginsberg, Editora L&PM, tradução de Cláudio Willer, 210 páginas.
q A Queda da América - de Allen Ginsberg, Editora L&PM, tradução de Paulo Henriques Brito, 197 páginas.

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