Sexo. Não adianta dizer que essa palavra não provoca as mais variadas reações. Curiosidade, repúdio, culpa, cumplicidade, prazer, medo... Desde que foi ‘‘estabelecido’’ o pecado original, sexo sempre rendeu muito comentário. E mais uma forma divertida de falar sobre o assunto será mostrada pela atriz Clarisse Abujamra, que apresenta no Festival Internacional de Londrina o espetáculo ‘‘A Maçã de Eva’’. O monólogo, dirigido por Ivan Feijó, será encenado hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.
Clarisse Abujamra sobe ao palco para dar seu recado em tom de palestra – mas longe de ser coisa séria: o humor é o ingrediente utilizado para falar das mais diversas situações que envolvem a sexualidade. O texto de Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo, escrito em 1995, recebeu nova roupagem no espetáculo encenado no Brasil. A diferença desta montagem para a original, na Itália, é que lá a própria autora – Franca Rame – é quem vai ao palco. ‘‘Aqui no Brasil foi criada a personagem de uma mulher tímida, que é chamada para falar sobre sexo’’, conta Clarisse.
‘‘A Maçã de Eva’’ mostra a vida dessa mulher, que fala de épocas de sua vida, da infância à experiência de ser mãe. ‘‘Ela conta a relação repressora com a mãe, as conversas com as amigas na adolescência, os casos amorosos’’, antecipa a atriz.
Clarisse Abujamra parte dessa mesma personagem para interpretar outras 18 figuras, entre homens e mulheres. ‘‘Quando fala de outras pessoas, ela também as interpreta. Quando fala do filho, faz o papel do filho, da amiga, a mesma coisa’’, diz. A atriz explica que, dessa forma, o diretor Ivan Feijó tentou quebrar a monotonia e agilizar ao máximo o espetáculo. ‘‘Esse jogo cênico é o que caracteriza o trabalho’’.
Apesar de não interagir diretamente com o público, Clarisse Abujamra estabelece um jogo de cumplicidade com os espectadores. ‘‘O espetáculo levanta todos os problemas relacionados à sexualidade. Inevitavelmente as pessoas acabam se identificando com eles’’. E como se dá a abordagem do assunto no palco? ‘‘Dou nomes aos bois. Sem entrelinhas, sem subliminares’’, avisa.
Em cartaz com este espetáculo desde julho do ano passado, Clarisse Abujamra não tem dúvidas que sexo, sem dúvida, ainda é um tabu. ‘‘O primeiro medo, na verdade, foi meu. Imaginei que essa peça atrairia apenas a velha guarda, já que hoje em dia é tudo tão avançado. Ledo engano. Os jovens enlouquecem!’’, conta. Quem também não fica atrás são as mulheres. ‘‘Algumas que vão sozinhas ao teatro querem voltar com seu companheiro. Elas se identificam ao ver uma mulher falando de sexo abertamente. E falando de tudo: de homem, mulher, criança, adolescente’’.
Para o diretor Ivan Feijó, ‘‘A Maçã de Eva é um espetáculo que, por via do humor, propõe uma mudança de atitude diante do sexo, sugerindo que as relações saiam da brutalidade e do egoísmo e caminhem para o prazer compartilhado no encontro amoroso e na brincadeira gostosa e despudorada’’.
Clarisse Abujamra começou sua carreira nos palcos como bailarina e depois coreógrafa. E apesar de hoje se dedicar ao trabalho de atriz, confessa que essa base em dança ‘‘será preservada até morrer’’. ‘‘A nossa maior arma é a sabedoria. Mas o controle e o domínio físico e da voz são fundamentais’’.
Aos 30 anos de carreira, ela assume que, como toda boa ariana, estréia um espetáculo já pensando em outro. Não é à toa que está preparando projetos de um programa de televisão num canal alternativo, uma nova montagem e um projeto de direção – os quais ela prefere não adiantar. Além disso, está em temporada com ‘‘A Maçã de Eva’’ na Casa da Gávea, no Rio de Janeiro, e apresentando o espetáculo ‘‘Por Um Triz’’, com o cantor Carlos Navas, em São Paulo.
‘‘A Maçã de Eva’’, monólogo da atriz Clarisse Abujamra, de São Paulo. Texto: Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo. Tradução: Cícero Sandroni. Direção e cenografia: Ivan Feijó. Assistente de direção: Sílvia Patch. Música: André Abujamra. Figurino e maquiagem: Adriana Ramos. Direção de Palco: Yara Leite. Luz: Ivan Feijó e Yara Leite. Som: Adriana Amorim. Produção Executiva: Flandia Mattar.

mockup