Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Das quase 160 obras selecionadas para o 4º Salão de Artes Plásticas de Londrina, que começa no dia 26 de agosto, duas certamente vão chamar bastante a atenção dos visitantes. São duas fotos feitas pelo artista plástico e também fotógrafo Fernando Augusto que mostram, com laivos de abstracionismo, o ato sexual entre um homem e uma mulher. Nada chocante ou pornográfico. Chamativo, sim. Por isso, uma coisa é certa: as fotos vão suscistar as mais diversas reações em quem deitar olhos e mentes sobre elas.
Na verdade, Fernando Augusto havia remetido três fotos aos organizadores do Salão de Londrina - as mesmas que foram expostas no 27º Salão de Arte Contemporânea de Santo André, realizado em maio deste ano, e que despertaram o interesse dos frequentadores. Entretanto, no evento londrinense, promovido pelas Secretarias Estadual e Municipal de Cultura, só duas receberam aprovação. ‘‘Escolheram talvez as menos contundentes’’ - avalia Augusto.
O trabalho - sem nome - começou a ser produzido há sete anos, desde que o artista plástico veio residir em Londrina. No total, a série contempla cerca de 100 fotos em preto-e-branco nas quais Fernando Augusto explora o contraste de luzes e sombras que os corpos oferecem.
E o resultado visual é, acima de tudo, um jogo de cena sensual em que o espectador é convidado a participar com suas conotações. ‘‘Encontrei um jeito de fotografar o nu de forma muito particular, com ângulos inusitados. Eu coloco o espectador dentro da fotografia’’- reforça Augusto.
Augusto permite-se o silêncio sobre quem são os modelos ou em quais situações as fotos foram feitas. Prefere dizer apenas que o tema ‘‘sexo’’ é uma constante em suas áreas de atuação artística - seja pintura, desenho e mesmo fotos. Ele frisa, entretanto, que nessa série de fotografias não quis imprimir erotismo puro e simplesmente. ‘‘Eu vejo sensualidade nas fotos’’- resume.
Mas nem todos têm a mesma visão do artista. Há pouco tempo, Augusto tentou mostrar duas de suas fotos, ampliadas, na famosa vitrine do Bar Valentino, em Londrina. Seria, digamos, a estréia da série na cidade. Não foram aceitas. ‘‘Escolhi o bar pelo ambiente noir e pelo fato também de ser um bar que se diz moderno e que se interessa pelas coisas da cultura’’- conta ele.
O proprietário do Valentino, Valdomiro Chamme, assume que realmente não aceitou que as obras fossem expostas em seu estabelecimento. Diz que concordou que o artista expusesse seus trabalhos. Porém, mudou de idéia quando viu do que se tratava. ‘‘Não achei as fotos artísticas, achei fotos escrachadas, sem poesia, sem sugestão. Além disso, é destoante para um bar-restaurante uma pessoa comer um prato de macarrão com fotos em close de um ato sexual na vitrine’’- argumenta Chamme.
Fernando Augusto sabia que no fundo, no fundo sua produção poderia causa polêmica. Diz ele que sua verdadeira intenção foi tornar público um projeto de cunho pessoal mas que no geral tem que ser visto sob o ângulo artístico. ‘‘Londrina é uma cidade em que todos se conhecem e por isso é um ambiente propício para polêmicas como essas. Mas eu acredito que as fotos têm força o suficiente para provocar esse tipo de discussão em qualquer lugar’’- analisa.
Depois de Londrina, Fernando Augusto pretende levar suas fotos para o exterior. Em fevereiro, ele deve montar uma exposição com pinturas, fotos e desenhos de sua autoria, denominada ‘‘Diálogo Difícil’’, na França. É que o artista vai em setembro a Paris para o estágio de doutorado de um ano - na área de Comunicação e Semiótica, que atualmente faz na PUC de São Paulo - na Universidade de Soborne, graças a uma bolsa de estudo que recebeu do CNPq. Além disso, Augusto já encaminhou uma proposta de exposição de seus trabalhos para um Salão de Artes Plásticas na Polônia.

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