O SEXO COMPLEXO DAS MULHERES
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Livro, adaptado de uma peça de grande sucesso na Broadway e que está em cartaz no Rio de Janeiro, chega ao público abordando a sexualidade feminina
A sexualidade feminina já deu origem a uma infinidade de teses obtusas, best sellers ocos e tagarelices ociosas. Raras vezes, o tema mereceu um tratamento tão comovente quanto em O Monólogo da Vagina, reunião de textos da dramaturga e ativista feminista norte-americana Eve Ensler, que chega agora aos leitores brasileiros pela editora Bertrand.
O livro foi gestado há cinco anos, quando Eve decidiu entrevistar mulheres sobre suas vaginas depois de perceber o quanto o assunto lhes provocava desconforto. Com o gravador sempre à mão, percorreu o mundo ouvindo mulheres de todas as idades, as casadas e solteiras, lésbicas, professoras universitárias, atrizes, empresárias, prostitutas, afro-americanas, hispânicas, asiáticas, nativas americanas, caucasianas e judias.
Estava preocupada com vaginas conta ela, nas primeiras páginas. Estava preocupada sobre o que pensamos sobre vaginas. E estava mais preocupada ainda com o que não pensamos sobre elas. Estava preocupada com a minha própria vagina. Eu necessitava de um contexto de outras vaginas uma comunidade, uma cultura de vaginas. Há tanto obscurantismo, tantos segredos cercando as vaginas. Elas são como o Triângulo das Bermudas. Ninguém jamais responde de lá.
Eve ouviu cerca de 200 mulheres. Com base nos depoimentos, escreveu uma peça que rodou o mundo e chegou a faturar um prêmio nos Estados Unidos em 1997. No mês passado, o espetáculo estreou no Rio de Janeiro com a atriz Zezé Polessa puxando os monólogos sob direção de Miguel Falabella. O livro é uma adaptação da montagem reunindo transcrições quase literais das entrevistas e monólogos editados.
O prefácio é assinado pela feminista de carteirinha Gloria Steinen, que lembra a certa altura que levou muitos anos para aprender que a mulher possui o único órgão do corpo humano sem outra função senão a de proporcionar prazer. É em torno dessa descoberta que giram as narrativas íntimas apresentadas ao longo das páginas, revelando-se ora bem-humoradas ora poéticas e viscerais.
Não era pipi, mas cheirava
Uma velhinha judia abre seu monólogo confessando: não vou lá desde 1953. Traumatizada, ela chama sua vagina de porão e traz um relato ingênuo e pungente sobre como passou a sentir medo e vergonha depois de ter gozado pela primeira vez ao ser beijada por um rapaz e ser recriminada por ele na adolescência.
E eu fiquei excitada, meu Deus, como eu fiquei excitada conta ela. Senti uma torrente lá embaixo. Não pude controlar. Era como se fosse a força da paixão aquele rio de vida que saía dentro de mim, atravessava as minhas calcinhas e molhava o assento do seu Chevy branco e novinho. Não era pipi, mas cheirava... aliás, para dizer a verdade, eu não senti cheiro algum, mas ele disse que cheirava. Andy disse que cheirava a leite azedo e que estava manchando o assento do seu carro. Ele disse que eu era uma garota esquisita e fedorenta. Andy me levou para casa e não disse mais nenhuma palavra. Quando saí do carro e fechei a porta, fechei também todo o estabelecimento lá embaixo. Tranquei mesmo e nunca mais o abri novamente. Encontrei-me com alguns rapazes depois disso, mas o medo da torneira debaixo se abrir me deixava nervosa demais. Nunca mais cheguei perto do porão.
Outro relato revela uma paixão homossexual, depois de atravessar uma infância reprimida pela mãe e violentada pelo melhor amigo de seu pai. A primeira menstruação ganha um coro de vozes, alternando depoimentos de várias mulheres. Eu tinha doze anos. Minha mãe me deu um tapa diz uma delas. O estupro é tema de outra passagem tocante (leia a íntegra desse monólogo nesta página), baseada na história de uma sobrevivente de um campo de concentração da Bósnia, onde milhares de mulheres foram violadas em 1993 como sistemática estratégia de guerra.
Ela tem um cérebro muito sabido
Eve conta que conheceu nove mulheres que tiveram o primeiro orgasmo durante as sessões de um workshop ministrado por Betty Dodson, uma feminista que há mais de duas décadas vem ajudando mulheres a localizar, amar e masturbar suas vaginas. O livro inclui pequenos textos informativos extraídos da Enciclopédia de Mitos e Segredos da Mulher.
Um deles lembra um julgamento de feiticeiras, em 1593, que terminou em condenação depois que um advogado descobriu um clitóris, o qual identificou como a teta do diabo. Outro texto traz à tona um absurdo do século dezenove, quando meninas que aprendiam a atingir o orgasmo através da masturbação eram consideradas casos médicos: eram tratadas através da amputação ou cauterização do clitóris, obrigadas a usar miniaturas de cintos de castidade e ainda castradas com a remoção dos ovários.
Mais adiante, a delicadeza se faz presente no capítulo intitulado Perguntei a uma Menina de Seis Anos, o qual reproduzimos um trecho:
O que é que sua vagina lembra?
Um belo pêssego negro. Ou um diamante. Encontrei um tesouro e ele é meu.
O que há de tão especial com a sua vagina?
De alguma forma, bem lá no fundo, eu sei que ela tem um cérebro muito sabido.
Sua vagina cheira a quê?
Flocos de neve.
Em Os Monólogos da Vagina, mergulhamos num universo carregado de tabus. Mas sua leitura parece, como nota o texto de apresentação, apagar o ponto de interrogação que ainda paira sobre a anatomia feminina.


